Voltar para o Blog
Negociação e Influência17 / 20
PensadoresNegociação e InfluênciaParte 17 de 20

Stuart Diamond — negociar com pessoas, não com planilhas

11 min de leitura
Compartilhar
Pensadores

"Think about meeting your goals, not about wining over someone else." (Stuart Diamond, Getting More)

O essencial em 30 segundos

A maior parte da teoria de negociação assume que pessoas são racionais: dê os argumentos certos, mostre os números, e o acordo se fecha sozinho. Stuart Diamond, professor de Wharton e jornalista vencedor do Pulitzer, parte do oposto. Para ele, pessoas são profundamente irracionais, emocionais e movidas por percepções — e qualquer método que ignore isso quebra na vida real. Sua abordagem em Getting More tem três pilares: foque em metas (não em ter razão), comece pelas pessoas e suas percepções (não pelos seus argumentos) e use o valor das coisas intangíveis para trocar itens de valor desigual. O movimento mais característico do método é trocar algo que custa pouco para você por algo que vale muito para o outro — e usar os próprios padrões da contraparte como alavanca, jogando contra ela as regras que ela mesma estabeleceu. Não é negociação de grande deal espetacular; é a negociação do dia a dia, ganho a ganho incremental, "um hit a mais a cada nove jogos". Para quem opera um portfólio e negocia o tempo todo, é o manual tático mais útil que existe.

Quem é

Stuart Diamond nasceu nos Estados Unidos em 1951. É um caso raro de quem chegou à negociação por três portas ao mesmo tempo: o jornalismo, o direito e os negócios.

Antes da academia, foi jornalista — e não um qualquer. Em 1987, dividiu um Prêmio Pulitzer pela investigação que expôs a responsabilidade da NASA na tragédia do ônibus espacial Challenger, em 1986. Esse pedigree investigativo marca todo o seu método: a obsessão por descobrir o que o outro lado realmente pensa, em vez de presumir.

Depois, formou-se em Direito por Harvard (J.D., 1990) e fez um MBA com honras em Wharton (1992). Tornou-se professor de negociação na Wharton School da Universidade da Pensilvânia, onde leciona há mais de vinte anos, com um dos cursos mais procurados e mais bem avaliados da escola.

Seu livro Getting More: How You Can Negotiate to Succeed in Work and Life saiu em 2011, virou best-seller do New York Times, vendeu cerca de 2 milhões de cópias e foi traduzido para 27 idiomas. O Google o adotou para treinar 12 mil funcionários ao redor do mundo ao longo de oito anos; o Wall Street Journal o chamou de livro número 1 para a carreira, e a Inc. Magazine o classificou como o melhor livro de negociação "de todos os tempos". Estima-se que Diamond já tenha ensinado ou assessorado mais de 40 mil pessoas em mais de 60 países, de crianças em idade escolar a chefes de Estado.

A grande contribuição

A contribuição de Diamond é ter desmontado, com método, o mito do negociador racional.

A escola dominante — a de Harvard, Getting to Yes — ensina a separar pessoas do problema, focar em interesses e usar critérios objetivos. É excelente. Diamond, que admira essa tradição, faz uma objeção empírica devastadora: na vida real, as pessoas não se separam do problema. Elas são o problema, e são a solução. Emoção, percepção, relacionamento e a sensação de ter sido ouvido pesam mais, na média das negociações cotidianas, do que a lógica do acordo.

Daí o ponto de partida invertido. Diamond insiste que uma negociação "tem que começar com eles e suas percepções. Não com suas propostas, não com planilhas, não com qualquer conjunto de fatos, mas com as percepções e emoções deles." A planilha vem depois — se vier.

A segunda contribuição é a noção de trocar coisas de valor desigual. Como pessoas valorizam coisas diferentes, quase toda negociação tem pares de itens em que algo barato para você é caro para o outro, e vice-versa. O bom negociador não divide o bolo ao meio; ele descobre esses pares e troca. Um intangível — reconhecimento, prazo, exclusividade, uma menção pública, a sensação de respeito — pode custar quase nada e valer muitíssimo do outro lado.

A terceira é o uso dos padrões do outro lado como alavanca. Toda contraparte tem regras declaradas: políticas, promessas de marca, valores que ela proclama, precedentes que ela mesma criou. Diamond ensina a guardar essas regras e devolvê-las quando convém. "Vocês dizem que o cliente vem em primeiro lugar — então como esta política se encaixa nisso?" É uma alavanca poderosa porque a contraparte não pode contestar a própria regra sem perder credibilidade.

E a quarta, mais cultural do que técnica: Diamond é o profeta do incremental. Ele não promete viradas heroicas. "Não estou tentando rebater home runs em negociações. Estou tentando conseguir um hit a mais a cada nove jogos." Somados ao longo de uma vida e de um portfólio, esses ganhos pequenos são enormes.

As ideias-chave

Comece pelas pessoas e pelas percepções deles

O primeiro movimento de Diamond não é apresentar sua proposta — é entender a cabeça do outro. O que ele percebe? Como ele se sente? Quem ele precisa agradar? Que história ele conta a si mesmo sobre esta negociação?

"Think about meeting your goals, not about wining over someone else", escreve ele. E complementa: "If you make friends with the other party, they will look for ways to help you meet your goals." Não é gentileza ingênua — é estratégia. Um operador negociando a instalação de carregadores num shopping não deveria abrir com a tabela de preços. Deveria descobrir o que o gestor do shopping percebe como ganho: fluxo de clientes, imagem de sustentabilidade, diferenciação frente ao concorrente da esquina. A proposta depois se molda a essa percepção.

Emoção é o que quebra (ou salva) o acordo

Diamond é categórico: "Emotion destroys negotiations and limits creativity. Focus is lost. Decision-making is poor." Mas o insight não é "elimine a emoção" — é gerenciá-la, especialmente a do outro. Ele observa que mandar alguém se acalmar piora tudo, porque desvaloriza a legitimidade do sentimento da pessoa, e gente que se sente desvalorizada fica mais emocional, não menos.

Na prática: quando um fornecedor explode por causa de um atraso de pagamento, a pior resposta é "calma, vamos ser racionais". A resposta de Diamond é validar primeiro — "você tem razão de estar frustrado, isso foi falha nossa" — e só então resolver. A emoção reconhecida abre espaço; a emoção negada fecha.

Troque coisas de valor desigual

Esse é o coração tático do método. Liste o que você quer e o que o outro quer; depois cace os pares assimétricos. O que é barato para mim e caro para ele? O que é caro para mim e barato para ele?

Num contrato de fornecimento de combustível, um operador pode descobrir que o distribuidor valoriza enormemente o volume garantido e previsível (porque melhora o planejamento logístico dele), enquanto para o operador um compromisso de volume anual custa pouco — ele já compra esse volume de qualquer jeito. Troca-se, então, garantia de volume (barata para mim) por melhor condição de preço ou prazo (cara para ele). Os dois saem ganhando, e ninguém dividiu nada ao meio.

Use os padrões do outro lado contra ele mesmo

Pessoas e empresas detestam parecer incoerentes. Diamond ensina a coletar as regras, políticas e promessas declaradas da contraparte e devolvê-las no momento certo.

Se o fabricante de carregadores anuncia "suporte técnico em 24 horas" no material de marketing, essa frase vira uma alavanca contratual: "Vocês prometem 24 horas — vamos colocar isso no contrato com uma multa por descumprimento, certo?" Recusar é admitir que a promessa pública é vazia. O padrão dele virou minha alavanca.

Pense pequeno e incremental

"I'm not trying to hit home runs in negotiations. I'm trying to get one extra hit every nine games." Diamond rebaixa deliberadamente a expectativa por negociação. O objetivo de cada conversa não é a virada total — é um passo a mais. "Don't laugh at the crocodile until you've crossed the river": resolva o problema imediato, não a guerra inteira. Somados, esses passos pequenos compõem resultados que nenhuma jogada única produziria.

Em suas palavras

"Think about meeting your goals, not about wining over someone else." (Getting More)

"If you make friends with the other party, they will look for ways to help you meet your goals." (Getting More)

"Emotion destroys negotiations and limits creativity. Focus is lost. Decision-making is poor." (Getting More)

"I'm not trying to hit home runs in negotiations. I'm trying to get one extra hit every nine games." (Getting More)

"Never make yourself the issue. Just because the other side is a jerk doesn't mean you should be a jerk." (Getting More)

Limites e críticas

A força de Diamond — o pragmatismo granular — é também sua vulnerabilidade.

A primeira crítica é a da manipulação. Usar as percepções, as emoções e os padrões declarados do outro lado como alavanca caminha numa linha tênue. Bem feito, é empatia estratégica; mal feito, é jogar com as inseguranças alheias. Diamond defende a ética e diz que o método funciona melhor quando honesto, mas o conjunto de ferramentas, nas mãos erradas, vira um manual de manipulação fina. O leitor precisa fornecer a bússola moral.

A segunda é a falta de arquitetura. Getting More tem dezenas de táticas — algumas listas chegam a doze, treze itens. É um arsenal, não um sistema. Quem busca um arcabouço enxuto e hierarquizado pode se sentir perdido na abundância. (É exatamente aqui que Shell, com seus seis fundamentos, complementa Diamond.)

A terceira é o viés do exemplo anedótico. O livro é construído sobre histórias de alunos que conseguiram upgrades, descontos e empregos. São deliciosas e convincentes — mas anedotas não controlam para sorte, contexto ou viés de sobrevivência. O sucesso de uma tática numa história não prova sua robustez estatística.

Por fim, há um limite de assimetria de poder. As táticas de Diamond brilham em negociações relativamente equilibradas ou de baixo poder relativo (consumidor versus empresa, funcionário versus chefe). Diante de uma contraparte com poder esmagador e nenhuma necessidade de você, "trocar intangíveis" e "usar os padrões dela" perde tração. Nem toda mesa é negociável.

Como aplicar no seu dia a dia

O primeiro uso é a preparação invertida: antes de cada negociação relevante, não comece montando a sua planilha — comece escrevendo o que a outra pessoa percebe, o que ela teme e quem ela precisa agradar. Numa operação com várias frentes, você senta com fornecedores, fabricantes, gestores e clientes corporativos — cada um com uma percepção diferente do que é "ganhar". Mapear essa percepção antes da reunião muda a primeira frase que você diz.

O segundo uso é o inventário de trocas de valor desigual. Para cada deal, monte duas colunas: o que é barato para você e caro para o outro, e o vice-versa. Volume garantido, prazo de pagamento, exclusividade regional, co-marketing, prioridade de instalação, dados de uso — quase sempre existe um par assimétrico que destrava o acordo sem que você ceda em preço. Esse é o movimento que mais gera valor na mesa.

O terceiro uso são os padrões da contraparte como alavanca. Guarde o que o outro lado promete em público — SLA de suporte, política de preço, compromisso de sustentabilidade, prazo de entrega anunciado — e devolva na hora de contratar. Colocar a promessa pública dentro do contrato, com consequência por descumprimento, é uma das alavancas mais limpas que existem: a contraparte não pode recusar sem se contradizer.

E o quarto, que é mais um hábito do que uma tática: mirar o incremental. Nem toda reunião precisa resolver tudo. Um prazo um pouco melhor, uma cláusula a mais a seu favor, uma percepção que melhorou para a próxima conversa — somados ao longo de dezenas de negociações por ano, esses "hits a mais" compõem mais valor do que qualquer tentativa de home run que arrisca quebrar a relação.

Para ir além

Comece por Getting More: How You Can Negotiate to Succeed in Work and Life (2011). Leia com caneta na mão e, ao fim de cada capítulo, escreva uma negociação real sua à luz da tática apresentada. O livro só funciona aplicado.

Depois confronte Diamond com Fisher & Ury, Getting to Yes — a escola racionalista de Harvard que Diamond respeita e revisa. Ver as duas lado a lado revela exatamente onde a "racionalidade" basta e onde ela quebra.

Avançado: combine Diamond com g-richard-shell para ter sistema e táticas, e com a literatura de economia comportamental (Kahneman, Thinking, Fast and Slow) para entender, na base, por que as pessoas são tão previsivelmente irracionais quanto Diamond observa na prática.

Conexões no vault

  • Negociacao e Influencia — índice da área
  • g-richard-shell — o par perfeito: Shell te dá a arquitetura (quem você é, os seis fundamentos), Diamond te dá o que dizer e fazer na hora
  • Fisher & Ury, Getting to Yes — a tradição racionalista que Diamond completa pelo lado humano
  • Daniel Kahneman, Thinking, Fast and Slow — a base científica da irracionalidade que Diamond explora taticamente

Curtiu como a gente pensa?

É assim que trabalhamos todo dia.

Se esse jeito de pensar é o seu, vem construir com a gente — dá uma olhada nas vagas abertas.

Ver vagas