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Negociação e Influência7 / 20
PensadoresNegociação e InfluênciaParte 7 de 20

G. Richard Shell — negociar a partir de quem você é

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"High achievement comes from high goals." (G. Richard Shell, Bargaining for Advantage)

O essencial em 30 segundos

Quase todo livro de negociação te ensina a fazer um personagem: o negociador frio, durão, que blefa bem e nunca pisca. G. Richard Shell, professor de Wharton, fez o caminho oposto. A tese central de Bargaining for Advantage é que a melhor negociação não nasce de uma técnica importada, e sim do autoconhecimento — de saber se você é, por natureza, cooperativo ou competitivo, e ajustar a estratégia a partir daí em vez de lutar contra a própria personalidade. Sobre essa base ele empilha seis fundamentos práticos: estilo, metas, padrões, relacionamentos, interesses do outro lado e alavancagem. E, no meio disso tudo, uma defesa firme de que ética não é fraqueza — é o que sustenta sua reputação ao longo de dezenas de negociações repetidas. Para quem opera um portfólio e senta na mesa toda semana, é a abordagem mais honesta e mais durável que existe: você não precisa virar outra pessoa para negociar bem; precisa conhecer a pessoa que já é.

Quem é

George Richard Shell nasceu em 1949 nos Estados Unidos. É o professor Thomas Gerrity de Estudos Jurídicos, Ética nos Negócios e Gestão na Wharton School da Universidade da Pensilvânia, onde leciona desde 1986. Dirige o célebre Wharton Executive Negotiation Workshop e o Strategic Persuasion Workshop, por onde já passaram dezenas de milhares de líderes empresariais.

A lista de quem ele já treinou diz muito sobre a amplitude da abordagem: de SEALs da Marinha americana, diplomatas da ONU e CEOs da Fortune 500 a negociadores de reféns do FBI, enfermeiros de pronto-socorro e professores de escola pública. Não é um método para tubarões de Wall Street — é um método para gente que precisa negociar e quer fazê-lo sem trair quem é.

Seu livro mais conhecido, Bargaining for Advantage: Negotiation Strategies for Reasonable People, saiu em 1999, venceu naquele ano o prêmio de excelência do CPR Institute for Dispute Resolution, foi publicado em catorze edições estrangeiras e chegou à terceira edição pela Penguin em 2018. O subtítulo — "estratégias de negociação para pessoas razoáveis" — é programático. Shell escreve para quem desconfia da imagem caricata do negociador implacável e mesmo assim quer resultados melhores.

Antes de Wharton, Shell teve uma trajetória menos linear: estudou, viajou, passou um tempo em um mosteiro budista, voltou, cursou Direito e advogou em litígios antes de migrar para a academia. Essa biografia importa porque dá a ele uma sensibilidade rara entre os teóricos de negociação: a noção de que técnica desencaixada da pessoa não funciona — e às vezes faz mais mal do que bem.

A grande contribuição

A grande virada de Shell foi inverter a ordem da pergunta. A maioria dos manuais começa perguntando "qual é a tática certa para esta situação?". Shell começa perguntando "quem é você?".

Ele importou para a negociação o Thomas-Kilmann Conflict Mode Instrument e o transformou no seu Bargaining Styles Assessment Tool, que mapeia cinco estilos: competir, colaborar, ceder (compromising), acomodar e evitar. O ponto não é descobrir qual estilo é o "melhor" — Shell insiste que não existe estilo ideal, cada um tem vantagens e passivos. O ponto é descobrir qual é o seu, porque é desse ponto de partida que você vai negociar bem ou mal.

Um acomodador nato que tenta blefar como um competidor parece falso e perde. Um competidor nato que tenta ser caloroso a contragosto soa manipulador. A maestria, para Shell, não está em adquirir um estilo novo, mas em conhecer o seu, compensar suas fraquezas conscientemente e ajustar a tática à situação sem deixar de ser você. Como ele mesmo observa sobre um negociador de sucesso: ele venceu "não superando suas fraquezas de negociação, mas aceitando-as".

Sobre esse alicerce de autoconhecimento, Shell constrói os seis fundamentos da negociação eficaz. É o esqueleto prático de todo o livro:

  1. Seu estilo de negociação — quem você é à mesa.
  2. Suas metas e expectativas — o que você de fato persegue.
  3. Padrões e normas autoritativas — os critérios objetivos que legitimam uma posição.
  4. Relacionamentos — o capital de confiança entre as partes.
  5. Os interesses do outro lado — o que move quem está do outro lado da mesa.
  6. Alavancagem — quem tem mais a perder se não houver acordo.

A segunda contribuição, igualmente importante, é a defesa explícita da ética. Em um campo que muitas vezes flerta com o "tudo vale para fechar o negócio", Shell trata reputação como ativo de longo prazo. Negociadores eficazes, escreve ele, "são confiáveis. Cumprem promessas, evitam mentir, não criam falsas esperanças". Não por ingenuidade — por cálculo. Num portfólio de relações que se repetem, integridade compõe juros.

As ideias-chave

Conheça seu estilo antes de escolher sua tática

A primeira coisa que Shell faz com um aluno não é dar uma tática — é fazê-lo se medir. Você é competitivo ou cooperativo por padrão? Sob pressão, você endurece ou você cede? A resposta muda tudo.

Pense num operador que, por temperamento, é colaborativo e detesta conflito. Se ele tenta imitar o estilo agressivo de um sócio que adora bater na mesa, ele vai parecer ensaiado e vai ceder no momento errado. A leitura de Shell é outra: esse operador deve jogar com seu estilo, não contra ele — usar a cooperação para abrir informação, construir confiança e ampliar o bolo, e compensar conscientemente sua aversão a conflito preparando antecipadamente os pontos em que não vai ceder. O estilo é o dado; a disciplina é o ajuste.

Metas altas, escritas e específicas

"High achievement comes from high goals" é a frase de Shell sobre o segundo fundamento. A pesquisa que ele cita é consistente: negociadores que entram com metas específicas e ambiciosas — e não apenas com um piso aceitável — terminam com resultados melhores. O piso (o famoso BATNA, sua melhor alternativa) te protege de aceitar um mau acordo; a meta te puxa para um bom acordo.

Na prática, isso significa não confundir "o mínimo que eu aceito" com "o que eu quero". Ao negociar um contrato de fornecimento, o operador que entra mirando apenas "não fechar abaixo de X" tende a ancorar a conversa nesse X. O que entra com uma meta explícita e justificável de "Y, com estes prazos e estas condições" estabelece um ponto de referência mais alto — e mesmo recuando, recua de um patamar melhor.

Padrões e normas: deixe o critério decidir

Pessoas razoáveis respondem a critérios. Se você consegue ancorar sua posição num padrão que o outro lado já reconhece — um índice de mercado, uma tabela de preços do setor, um precedente, uma norma técnica —, sua proposta deixa de soar como capricho e passa a soar como justiça.

Imagine a renovação de aluguel de um ponto comercial. "Quero pagar menos" é fraco. "O índice de reajuste contratado foi o IGP-M, que acumulou tanto no período, e o aluguel de pontos comparáveis nesta região está nesta faixa" é forte — porque transfere o ônus para o critério, não para a sua vontade. Shell chama isso de alavancagem normativa: você usa o padrão que o próprio outro lado aceita como legítimo.

Relacionamentos e os interesses do outro lado

Os fundamentos quatro e cinco caminham juntos. Relacionamento é o capital de confiança que reduz o atrito de toda negociação futura; interesses do outro lado é o trabalho de descobrir o que realmente move quem está na sua frente — quase sempre algo diferente da posição que ele declara.

"The best negotiators play it straight, ask a lot of questions, listen carefully, concentrate on accomplishing shared goals", escreve Shell. A ênfase em perguntar e ouvir é deliberada. Um fornecedor que insiste em prazo de pagamento mais curto pode, na verdade, estar com um problema de fluxo de caixa pontual — e você pode resolver isso com um adiantamento parcial em vez de um aumento de preço. Mas só descobre quem pergunta.

Alavancagem: quem tem mais a perder

O sexto fundamento é o mais frio dos seis. Alavancagem, em Shell, é a resposta à pergunta: quem tem mais a perder se não houver acordo? Existe alavancagem positiva (o que você pode oferecer que o outro quer), negativa (o que o outro perde se não fechar) e normativa (os padrões que pesam a seu favor).

A alavancagem não é fixa — ela se move durante a negociação e pode ser construída. Um operador com um único cliente grande tem pouca alavancagem; o mesmo operador com três propostas concorrentes na mesa tem muita. Boa parte do trabalho de preparação é, na verdade, trabalho de melhorar a própria alavancagem antes de sentar à mesa.

Em suas palavras

"High achievement comes from high goals." (Bargaining for Advantage)

"The best negotiators play it straight, ask a lot of questions, listen carefully, concentrate on accomplishing shared goals." (Bargaining for Advantage)

"Effective negotiators are reliable. They keep promises, avoid lying, don't raise false hopes." (Bargaining for Advantage)

"In general, your credibility comes from authority, knowledge, competence, and trustworthiness." (Bargaining for Advantage)

"Many reasonable people have a nagging, uneasy feeling about negotiation." (Bargaining for Advantage)

Limites e críticas

Nenhum método é completo, e o de Shell tem suas bordas.

A primeira crítica é a do autodiagnóstico. A abordagem inteira repousa sobre você conhecer seu estilo — mas autoavaliação é notoriamente imprecisa. Muita gente se acha mais cooperativa (ou mais durona) do que de fato é. Sem feedback externo, o ferramental de estilos pode virar um espelho lisonjeiro em vez de um diagnóstico honesto.

A segunda é cultural. O modelo dos cinco estilos e a ênfase em metas explícitas, padrões objetivos e perguntas diretas têm raiz num contexto anglo-americano. Em culturas de negociação mais indiretas, de alto contexto ou mais hierárquicas, "fazer muitas perguntas" e "ancorar alto" podem soar agressivos ou desrespeitosos. Shell reconhece a variável cultural, mas o arcabouço continua sendo, em essência, ocidental.

A terceira é que, comparado a autores mais táticos, Shell pode parecer abstrato no calor da hora. Saber que você é um acomodador não te diz, no segundo em que o outro lado faz uma exigência absurda, o que dizer em seguida. É um sistema operacional excelente, mas pede que você forneça os aplicativos — as falas concretas, os movimentos específicos. É por isso que ele combina bem com autores mais granulares, como Stuart Diamond.

Por fim, a aposta ética de Shell — de que a integridade compensa no longo prazo — é verdadeira em jogos repetidos, mas frágil em transações verdadeiramente únicas, com contrapartes que você nunca mais verá. Ele tem consciência disso; ainda assim, é uma fronteira onde o conselho perde força.

Como aplicar no seu dia a dia

O primeiro uso é simples e desconfortável: mapeie seu próprio estilo, de verdade. Num negócio com várias frentes, você senta em mesas muito diferentes — fornecedor, fabricante, cliente corporativo. Você não negocia igual em todas, mas tem um padrão de base. Saber se esse padrão é colaborativo ou competitivo diz onde você está forte e, mais importante, onde tende a vazar valor. Se o seu default é evitar conflito, saiba que o risco é ceder rápido demais em prazo e preço — então prepare antes, por escrito, os pontos inegociáveis.

O segundo uso é o de metas altas e escritas. Antes de cada negociação relevante, separe, em duas linhas distintas, "o que você quer" e "o pior que você aceita". São coisas diferentes, e confundi-las é o erro mais caro. Num contrato importante ou na expansão da operação, ancorar a conversa na meta — e não no piso — muda o resultado final, mesmo quando você recua.

O terceiro uso é o dos padrões do setor como alavanca. Em vez de defender seu preço como vontade, ancore-o num critério que o outro lado já aceita: índice de reajuste, benchmark de mercado, custo de aquisição de cliente comparável, tabela de referência. Transferir a discussão da sua vontade para o critério objetivo desarma o conflito e, quase sempre, fortalece sua posição.

E o quarto, que é o que sustenta os outros três no longo prazo: integridade como ativo. Muitos setores são mundos pequenos; o fornecedor de hoje é o sócio de amanhã. Cumprir o que prometeu, não criar falsas expectativas e não blefar onde você não consegue entregar não é candura — é o que mantém aberta a próxima mesa.

Para ir além

Comece por Bargaining for Advantage: Negotiation Strategies for Reasonable People (3ª ed., 2018), em especial os capítulos sobre estilo e sobre metas. Faça o Bargaining Styles Assessment com honestidade brutal — e, se puder, peça a alguém que negocia com você que responda também, sobre você.

Depois leia The Conflict Paradox e materiais do Program on Negotiation de Harvard sobre conflict styles, para situar Shell na tradição maior de negociação baseada em interesses (Fisher e Ury, Getting to Yes).

Avançado: estude o outro livro de Shell, Springboard: Launching Your Personal Search for Success, que estende o tema do autoconhecimento da mesa de negociação para a definição do que é sucesso para você. É a mesma tese — comece por quem você é — aplicada à carreira inteira.

Conexões no vault

  • Negociacao e Influencia — índice da área
  • stuart-diamond — o complemento tático perfeito: onde Shell te diz quem você é, Diamond te diz o que fazer e dizer na hora
  • Fisher & Ury, Getting to Yes — a base de negociação por interesses sobre a qual Shell constrói
  • William Ury — escalada, terceiro lado e o "não" como ferramenta

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