Voltar para o Blog
Negociação e Influência20 / 20
PensadoresNegociação e InfluênciaParte 20 de 20

Robert Mnookin — quando negociar e quando lutar

13 min de leitura
Compartilhar
Pensadores

"Em quase todos os casos, é melhor para todos negociar do que lutar." (Robert Mnookin, em síntese do Program on Negotiation sobre Bargaining with the Devil)

O essencial em 30 segundos

Robert Mnookin construiu a carreira em torno de uma pergunta que a maioria das pessoas resolve no piloto automático: diante de um adversário que já te prejudicou — ou que parece disposto a te prejudicar —, você senta para negociar ou você briga? A resposta intuitiva tende a ser visceral. Mnookin propõe o contrário: trate a decisão como uma análise sóbria de custo-benefício, e estabeleça uma "presunção refutável" a favor de negociar. Não porque negociar seja moralmente superior, mas porque nossos vieses — raiva, demonização do outro, desejo de não parecer fraco — sistematicamente nos empurram a lutar quando lutar é pior para nós mesmos. Ao mesmo tempo, ele recusa o pacifismo ingênuo: há casos em que lutar é a decisão certa. A contribuição central é dar um método para distinguir um do outro, e para gerenciar as três tensões permanentes de qualquer negociação: criar versus reivindicar valor, empatia versus assertividade, e principal versus agente.

Quem é

Robert Harris Mnookin nasceu em 1942, em Kansas City, no Missouri. Formou-se em economia em Harvard em 1964, magna cum laude, passou um ano como bolsista Fulbright no Econometric Institute de Roterdã e voltou para fazer Direito também em Harvard, concluindo em 1968. Foi assessor de juízes federais — incluindo o ministro John Marshall Harlan, da Suprema Corte — antes de entrar na vida acadêmica.

Sua trajetória passa por Berkeley e Stanford antes de fixar-se em Harvard, em 1993, como Samuel Williston Professor of Law. Por cerca de vinte e cinco anos presidiu o Program on Negotiation (PON), o consórcio interuniversitário sediado na Harvard Law School que se tornou o centro de gravidade do estudo sério de negociação no mundo. Antes de ser o teórico do conflito difícil, Mnookin já tinha deixado marca em outra área: seu artigo de 1979, "Bargaining in the Shadow of the Law", sobre divórcio, é um dos artigos jurídicos mais citados da história — e fundou a ideia de que as pessoas negociam "à sombra" daquilo que aconteceria se a disputa fosse parar num tribunal. Essa intuição — de que toda negociação é moldada pela alternativa de não acordo — atravessa tudo o que ele escreveu depois.

Ele não é apenas teórico. Foi um dos árbitros principais que resolveram a disputa de sete anos sobre direitos de software entre IBM e Fujitsu nos anos 1980 — um dos casos mais complexos de resolução de disputas comerciais de sua geração. Quando Mnookin escreve sobre adversários que não confiam um no outro, ele fala de quem já sentou na cadeira do mediador entre gigantes que se odiavam.

A grande contribuição

A maior parte da literatura de negociação te ensina como negociar bem. Mnookin recuou um passo e perguntou algo anterior: você deveria negociar? É uma pergunta surpreendentemente pouco estudada, porque ela parece óbvia até você reparar em quantas decisões catastróficas — pessoais, empresariais, geopolíticas — são na verdade respostas mal pensadas a ela.

Em Bargaining with the Devil: When to Negotiate, When to Fight (2010), ele define "o diabo" não como o mal abstrato, mas operacionalmente: um adversário que intencionalmente te prejudicou no passado ou parece disposto a te prejudicar no futuro — alguém em quem você não confia, cujo comportamento você talvez considere até maligno. Para examinar a decisão, ele usa oito conflitos reais, da história e da própria experiência profissional: de Churchill recusando negociar com Hitler em 1940 (um caso em que lutar foi certo) a Nelson Mandela escolhendo negociar com o regime do apartheid que o aprisionara por décadas (um caso em que negociar mudou a história). O ponto não é que negociar sempre vença. É que a decisão precisa de método.

O método tem dois pilares. Primeiro, o que ele chama de "presunção refutável" a favor de negociar: comece supondo que negociar é a opção, e só decida lutar se conseguir refutar essa presunção com razões sólidas. Por que essa inclinação? Porque os vieses humanos — tribalismo, demonização, raiva, o medo de parecer fraco, o que ele chama de "armadilhas" — empurram para a luta com uma força que distorce o cálculo. A presunção é um contrapeso deliberado contra a própria psicologia.

Segundo, separar "coração" de "razão". Mnookin observa que negociadores sábios usam a parte intuitiva e emocional do cérebro para decidir qual deveria ser o objetivo — e depois fazem a análise fria de custo-benefício de modo a chegar à conclusão certa. A emoção não é inimiga; ela é informação. Mas ela não pode ser quem dirige sozinha.

A segunda grande contribuição vem de antes, de Beyond Winning (2000), escrito com Scott Peppet e Andrew Tulumello. Ali, Mnookin nomeia as três tensões que todo negociador carrega ao mesmo tempo, sem poder resolver nenhuma de vez: a tensão entre expandir o valor e dividi-lo, a tensão entre empatia e assertividade, e a tensão entre principais e agentes. Essas três tensões são o esqueleto invisível de qualquer mesa de negociação — e nomeá-las é metade do caminho para administrá-las.

As ideias-chave

O dilema do negociador: criar valor versus reivindicar valor

Toda negociação tem duas lógicas opostas operando ao mesmo tempo. Para criar valor, você precisa ser aberto: compartilhar interesses, revelar prioridades, inventar opções que aumentem o bolo para os dois lados. Para reivindicar valor — garantir que você fique com a maior fatia possível —, você precisa ser fechado: blefar, segurar informação, ancorar agressivamente. O problema é que as duas exigências se contradizem. Quanto mais você se abre para criar valor, mais vulnerável fica a ser explorado por quem só quer reivindicar.

Esse é o "dilema do negociador". E ele não tem solução limpa — só gestão. Na prática, significa que você não pode tratar abertura como uma virtude absoluta nem desconfiança como uma esperteza absoluta. Num contrato de fornecimento de longo prazo para uma rede de postos, por exemplo, abrir o jogo sobre volumes futuros pode destravar um preço melhor — ou pode dar ao fornecedor a alavanca para te apertar quando você mais depender dele. A habilidade é calibrar quanto abrir, com quem, e em que sequência.

A presunção refutável a favor de negociar

A ideia mais prática de Mnookin: não pergunte "será que vale negociar com esse sujeito?" como uma página em branco. Comece com o dedo na balança a favor de negociar, e obrigue-se a refutar essa presunção antes de partir para a briga. Isso inverte o ônus da prova. Em vez de a negociação ter que se justificar contra o impulso de lutar, a luta é que precisa se justificar contra a opção mais barata e reversível.

Por quê? Porque "lutar" — um processo, uma guerra de relações públicas, uma ruptura — quase sempre é mais caro, mais demorado e mais incerto do que parece no calor do momento. A presunção é uma ferramenta anti-viés. Concretamente: quando um sócio ou um vizinho institucional te faz algo que parece de má-fé, a presunção te força a perguntar "o que eu realmente ganho lutando, descontados os custos e a incerteza?" antes de o orgulho responder por você.

As três tensões permanentes

De Beyond Winning: (1) criar versus dividir valor — já vista; (2) empatia versus assertividade — a capacidade de entender genuinamente o mundo do outro versus a capacidade de defender com firmeza os próprios interesses; (3) principal versus agente — o desalinhamento entre quem tem o interesse real (o dono) e quem negocia em nome dele (o advogado, o diretor, o representante).

A terceira tensão é a mais subestimada. O agente quase sempre tem incentivos diferentes do principal: o advogado ganha por hora e pode preferir o litígio; o executivo quer fechar para bater a meta do trimestre, mesmo que o termo seja ruim no longo prazo. Quem negocia através de agentes — e operadores de portfólio quase sempre o fazem — precisa desenhar os incentivos do agente, não apenas confiar na sua boa vontade.

Empatia não é concordância

Mnookin separa cirurgicamente empatia de simpatia. Empatia é a capacidade de demonstrar que você entendeu como o outro vê a situação — o que não significa que você concorda, cede ou aprova. É possível ser plenamente empático e plenamente assertivo ao mesmo tempo; aliás, é exatamente isso que distingue os melhores negociadores dos medianos. Ele fala em "des-demonizar" o adversário: tirá-lo da caixa do monstro irracional e tratá-lo como alguém com interesses inteligíveis. Não por bondade — por eficácia. Você não consegue prever nem influenciar quem você só sabe odiar.

Quando lutar é a resposta certa

Mnookin não é um apóstolo da conciliação. Churchill estava certo em recusar negociar com Hitler. Há situações em que o adversário não tem interesse real num acordo, em que negociar legitima quem não deveria ser legitimado, ou em que o custo de um mau acordo supera o custo de lutar. A presunção a favor de negociar é refutável justamente porque às vezes deve ser refutada. O erro a evitar é refutá-la por reflexo emocional, e não por análise.

Em suas palavras

"Em quase todos os casos, é melhor para todos negociar do que lutar." (síntese do Program on Negotiation sobre Bargaining with the Devil)

Sobre as três tensões da negociação: "a tensão entre como expandir o valor e como dividi-lo, a tensão entre empatia e assertividade, e a tensão entre principais e agentes." (Program on Negotiation)

Sobre o trabalho de tirar o adversário do lugar do monstro: é preciso "des-demonizar" o outro lado. (Program on Negotiation)

"O diabo" é um adversário "cujo comportamento você pode até ver como maligno" — alguém que te prejudicou intencionalmente ou parece disposto a te prejudicar. (definição em Bargaining with the Devil)

Sobre decidir bem: usar "a parte intuitiva e emocional do cérebro para decidir qual deveria ser o objetivo", e então conduzir a análise de custo-benefício "de modo que ela leve à conclusão certa." (paráfrase do caso Sharansky em Bargaining with the Devil)

Limites e críticas

A primeira crítica é que a "presunção refutável" pode virar racionalização da fraqueza. Se você sempre começa inclinado a negociar, corre o risco de aceitar maus acordos por aversão ao conflito — exatamente o oposto do que Mnookin quer, mas um efeito colateral plausível em quem tem temperamento conciliador. A presunção é uma correção para o viés de lutar demais; ela não ajuda quem já capitula cedo demais.

Segunda crítica: o framework do custo-benefício pressupõe que dá para estimar com alguma honestidade os custos da luta e os ganhos do acordo. Em conflitos de identidade, valores ou reputação, essas grandezas são quase incomensuráveis. Mnookin reconhece o papel do "coração", mas críticos apontam que, na prática, a análise racional pode dar uma falsa sensação de objetividade a decisões que são irredutivelmente morais.

Terceira: a obra trata sobretudo da decisão binária — negociar ou lutar — e menos do como executar a negociação depois de decidida. Quem busca tática fina de mesa encontra mais em outros autores. Mnookin é o estrategista da decisão de entrar, não o tático do lance a lance. E há quem diga que os oito casos históricos, por serem extremos, ensinam menos sobre os conflitos medianos e ambíguos do cotidiano — onde o adversário não é Hitler nem o apartheid, mas um sócio chato ou um concessionário difícil.

Como aplicar no seu dia a dia

Tocar um negócio com várias frentes é, no fundo, um fluxo contínuo de decisões "negociar ou lutar". E é exatamente onde os vieses que Mnookin descreve mais cobram caro.

A presunção refutável como protocolo de decisão. Quando um fornecedor descumpre, um sócio age de má-fé ou um órgão trava uma aprovação, o impulso é revidar. Adote a presunção como regra explícita: antes de partir para a ruptura ou o litígio, obrigue-se a escrever em uma linha o que você ganha lutando, descontados custo, tempo e incerteza — e o que ganha negociando. Na maioria das vezes, o ato de escrever já refuta o impulso. A luta raramente sobrevive ao papel. E quando sobrevive, lute com convicção, porque a decisão passou pelo crivo.

O dilema do negociador em contratos de longo prazo. Em acordos de fornecimento ou em parcerias de infraestrutura, a tensão entre criar e reivindicar valor aparece toda semana. Abra o jogo seletivamente: revele interesses que ampliam o bolo (volume, previsibilidade, prazo) e segure a informação que só serviria para o outro reivindicar à sua custa (sua real alternativa, sua urgência). Abrir não é virtude; é uma jogada calibrada.

A tensão principal-agente, que é a sua tensão. Quem toca um negócio negocia através de gente: gerentes, advogados, diretores. Os incentivos deles não são os seus. O diretor que quer bater meta do trimestre pode fechar um termo ruim de cinco anos. Use Mnookin para desenhar o incentivo do agente — alinhar o que ele ganha com o que você ganha — em vez de torcer pela boa vontade. Numa venda por assinatura, isso aparece em como você remunera quem fecha contratos: se o bônus é só sobre a assinatura, ele fecha contratos que dão dor de cabeça depois.

Des-demonizar órgãos públicos e concessionárias. Projetos que dependem de infraestrutura esbarram constantemente em órgãos públicos e concessionárias que parecem obstrucionistas. O reflexo é tratá-los como inimigos. Mnookin obriga a perguntar quais são os interesses reais por trás da lentidão — risco regulatório, medo de precedente, restrição técnica genuína. Quase sempre há um interesse inteligível, e quem o entende consegue desenhar uma proposta que destrava. Você não convence quem você só consegue odiar.

Empatia plena, assertividade plena. A lição mais útil no dia a dia: mostrar ao outro lado que você entendeu exatamente como ele vê a situação não é fraqueza nem concessão. É o que dá a você o direito de ser firme depois. Quando o interlocutor sente que foi compreendido, a assertividade deixa de soar como agressão e passa a soar como posição. As duas coisas, juntas, na mesma conversa.

Para ir além

Comece por: Bargaining with the Devil: When to Negotiate, When to Fight (2010). É o livro mais acessível e o mais útil para quem decide, narrado por oito casos concretos. Leia pensando em um conflito real seu enquanto avança.

Depois: Beyond Winning: Negotiating to Create Value in Deals and Disputes (2000), com Scott Peppet e Andrew Tulumello. É onde as três tensões e o dilema do negociador estão tratados com profundidade — leitura essencial para quem negocia contratos e disputas comerciais.

Avançado: o artigo seminal "Bargaining in the Shadow of the Law: The Case of Divorce" (1979) para entender a raiz intelectual de toda a obra — a ideia de que negociamos sempre à sombra da alternativa de não acordo. E, para quem quer a fundação teórica do PON, Getting to Yes, de Roger Fisher e William Ury, que é o solo de onde Mnookin parte e ao qual responde.

Conexões no vault

  • Negociacao e Influencia — área-mãe deste estudo
  • lawrence-susskind — colega de Mnookin no Program on Negotiation; complementa a decisão "negociar ou lutar" com o método de como conduzir negociações de muitas partes e disputas públicas via mutual gains e consensus building
  • A "presunção refutável a favor de negociar" conversa diretamente com a moldura de portfólio de Estudos: decisões de entrar ou não em conflito com fornecedores, sócios e órgãos públicos atravessam ClubPetro, Turbo Eletropostos e Gestão de Colabs

Curtiu como a gente pensa?

É assim que trabalhamos todo dia.

Se esse jeito de pensar é o seu, vem construir com a gente — dá uma olhada nas vagas abertas.

Ver vagas