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Negociação e Influência19 / 20
PensadoresNegociação e InfluênciaParte 19 de 20

Roger Fisher — o homem que separou o problema das pessoas

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"Your position is something you have decided upon. Your interests are what caused you to so decide." (Fisher, Ury & Patton, Getting to Yes, p. 43)

O essencial em 30 segundos

Roger Fisher é o sujeito que pegou a negociação — uma coisa que todo mundo faz e quase ninguém estuda — e transformou em método. Antes dele, a sabedoria popular dizia que negociar era um cabo de guerra: você puxa para o seu lado, o outro puxa para o dele, e o acordo fica no meio, com os dois insatisfeitos. Quem fosse "duro" ganhava; quem fosse "mole" perdia. Fisher achou essa dicotomia burra e perigosa, e propôs uma terceira via: a negociação baseada em princípios, ou negociação por mérito.

A ideia central é simples de enunciar e difícil de praticar: pare de barganhar sobre posições e comece a negociar sobre interesses. Separe as pessoas do problema. Invente opções de ganho mútuo antes de decidir. E ancore o acordo em critérios objetivos, não em quem grita mais alto. Fisher embrulhou tudo isso em quatro princípios, fundou o Harvard Negotiation Project em 1979, e co-escreveu Getting to Yes (Como Chegar ao Sim) em 1981 — um livro que vendeu milhões de cópias e virou o sistema operacional padrão de qualquer pessoa que precisa fechar acordo sem queimar a ponte do outro lado. Para um operador que vive negociando fornecimento, contratos de sócio e M&A, Fisher não é teoria acadêmica: é manual de campo.

Quem foi

Roger D. Fisher nasceu em 28 de maio de 1922, em Winnetka, Illinois, e morreu em 25 de agosto de 2012, em Hanover, New Hampshire, aos 90 anos. A biografia explica o método melhor do que qualquer resumo: Fisher não chegou à negociação pela teoria, chegou pela guerra e pela diplomacia.

Ele se formou em Harvard em 1943 e, no meio do curso, foi para a Segunda Guerra Mundial como piloto de reconhecimento meteorológico na Força Aérea do Exército americano (1942–1946). Voltou da guerra com colegas mortos e uma pergunta que o perseguiria pelo resto da vida: por que pessoas inteligentes não conseguem resolver conflitos sem se destruir? Em seguida trabalhou no Plano Marshall, em Paris, sob W. Averell Harriman — ou seja, viu de perto a maior operação de reconstrução e negociação multilateral do século XX. Depois fez Direito em Harvard (1948), foi para o escritório Covington & Burling em Washington e chegou a argumentar casos perante a Suprema Corte dos Estados Unidos.

Em 1958 voltou para Harvard como professor de Direito, onde permaneceu até 1992, tornando-se o Samuel Williston Professor of Law. Em 1979 fundou o Harvard Negotiation Project, que dirigiu até se aposentar. Não foi um teórico de gabinete: Fisher meteu a mão em conflitos reais. Esteve envolvido nos esforços de paz no Oriente Médio, incluindo a viagem de Anwar Sadat a Jerusalém e os Acordos de Camp David; aconselhou os lados americano e iraniano durante a crise dos reféns de 1981; participou de processos no fim da guerra civil em El Salvador, da disputa de fronteira Equador-Peru e da transição constitucional do apartheid na África do Sul. Ele tinha uma obsessão peculiar e reveladora sobre dissuasão nuclear: propôs que o código de lançamento de mísseis fosse implantado em uma cápsula "right next to the heart of a volunteer", de modo que o presidente, para apertar o botão, tivesse antes que matar um ser humano com as próprias mãos. A proposta nunca foi adotada, mas captura a alma de Fisher — forçar quem decide a sentir o custo humano da decisão.

A grande contribuição

A grande contribuição de Fisher foi inventar um vocabulário e um método que tornaram a negociação ensinável. Antes de Getting to Yes, "negociar bem" era considerado talento — você nascia bom de papo ou não. Fisher provou que era técnica.

O coração da contribuição é a negociação baseada em princípios (principled negotiation, ou negociação por mérito), construída sobre quatro pilares:

  1. Separar as pessoas do problema.
  2. Concentrar-se em interesses, não em posições.
  3. Inventar opções de ganho mútuo.
  4. Insistir em critérios objetivos.

A virada conceitual está em entender por que a barganha posicional (o cabo de guerra) é estruturalmente ruim. Quando você ancora uma posição — "quero R$ 5 milhões pela empresa" — e o outro ancora a dele — "ofereço R$ 3 milhões" —, a negociação vira um teste de ego. Cada concessão custa caro porque parece fraqueza, o relacionamento se desgasta, e o resultado tende a ser ineficiente: vocês fecham num número que ninguém escolheu de verdade. Fisher mostrou que posições são apenas a superfície; embaixo delas há interesses, e interesses costumam ser compatíveis mesmo quando posições colidem frontalmente. Como ele e Ury escreveram: "Your position is something you have decided upon. Your interests are what caused you to so decide" (p. 43). É a frase mais importante do livro.

Junto com William Ury, Fisher também cristalizou o conceito de BATNA (Best Alternative to a Negotiated Agreement) — a sua melhor alternativa caso o acordo não saia. O BATNA é a fonte real de poder em qualquer mesa: não é quem é maior ou quem fala mais grosso, é quem pode se levantar e ir embora com mais tranquilidade. "The more easily and happily you can walk away from a negotiation, the greater your capacity to affect its outcome" (p. 107-8).

As ideias-chave

1. Separe as pessoas do problema

Negociadores são seres humanos, e seres humanos confundem a pessoa com a questão. Quando o seu sócio diz "essa cláusula é abusiva", você ouve "você é abusivo" — e a conversa descarrila. Fisher insiste: ataque o problema duramente, mas trate a pessoa com suavidade. Coloque-se do lado do outro contra o problema, em vez de ficar de frente para ele.

A ferramenta concreta é a empatia operacional: "The ability to see the situation as the other side sees it, as difficult as it may be, is one of the most important skills a negotiator can possess" (p. 25). Exemplo no portfólio: numa renegociação de margem com um distribuidor de combustível, o gerente do outro lado está irritado porque foi cobrado pelo chefe dele por "perder volume" para você. O problema técnico (preço por litro) está embaralhado com a emoção (ele se sente ameaçado profissionalmente). Se você separar as duas coisas — reconhecer a pressão dele e ao mesmo tempo manter firmeza no número —, você resolve o preço sem transformá-lo em inimigo permanente.

2. Foque em interesses, não em posições

Posição é o que a pessoa pede; interesse é por que ela pede. Atrás de cada posição rígida existe um conjunto de necessidades, medos e desejos — muitos deles compartilháveis. O erro clássico é brigar pela posição e nunca descobrir o interesse.

Exemplo concreto: um sócio minoritário exige "controle de veto sobre todo investimento acima de R$ 200 mil". Posição dura. Mas pergunte por quê e talvez descubra que o interesse real é não ser surpreendido e não ver o caixa drenado sem aviso. O veto é só o instrumento que ele imaginou. Você pode satisfazer o interesse com transparência (relatório mensal de capex, comitê de investimento, gatilho de aviso) sem entregar o veto — que travaria a operação. Posições competem; interesses frequentemente se acomodam.

3. Invente opções de ganho mútuo

A maioria das negociações morre pobre porque as partes assumem que o bolo é fixo: o que um ganha, o outro perde. Fisher manda separar o momento de inventar opções do momento de decidir. Faça um brainstorming amplo, sem julgar, e procure ativamente as diferenças que viram solução: "Dovetail differing interests... differences can also lead to a solution" (p. 75).

Exemplo: numa aquisição, o vendedor quer preço alto (acredita no crescimento futuro) e você quer preço baixo (cético quanto ao futuro). Em vez de brigar pelo número, encaixe a diferença num earnout: parte do pagamento amarrada ao desempenho futuro. O vendedor recebe mais se estiver certo; você paga menos se estiver certo. A discordância sobre o futuro virou o mecanismo do acordo.

4. Insista em critérios objetivos

Quando interesses colidem de frente e não há opção criativa, não recorra à força de vontade — recorra a um padrão externo e legítimo. Múltiplo de EBITDA do setor, índice de reajuste, avaliação de terceiro, precedente de mercado. A regra de ouro de Fisher: "Never yield to pressure, only to principle" (p. 92). Isso muda a pergunta de "quem é mais teimoso?" para "qual é o critério justo?" — e protege o relacionamento, porque ninguém perde para o outro, ambos cedem ao mesmo padrão.

Em suas palavras

  • "Like it or not, you are a negotiator. Negotiation is a fact of life." (Getting to Yes, p. xxvii)
  • "Your position is something you have decided upon. Your interests are what caused you to so decide." (Getting to Yes, p. 43)
  • "The ability to see the situation as the other side sees it, as difficult as it may be, is one of the most important skills a negotiator can possess." (Getting to Yes, p. 25)
  • "The more easily and happily you can walk away from a negotiation, the greater your capacity to affect its outcome." (Getting to Yes, p. 107-8)
  • "Never yield to pressure, only to principle." (Getting to Yes, p. 92)

Limites e críticas

Getting to Yes é brilhante, mas não é evangelho. As principais críticas merecem ser levadas a sério por quem negocia de verdade.

Primeira: o método assume boa-fé e racionalidade do outro lado. Diante de um contraparte que mente, blefa sistematicamente, ou simplesmente não quer acordo nenhum (quer te quebrar), "focar em interesses" pode ser ingenuidade. O próprio Ury escreveu Getting Past No justamente para cobrir esse buraco — o que indica que Fisher reconhecia a lacuna.

Segunda: a distinção entre "posição" e "interesse" é mais nebulosa na prática do que no livro. Às vezes a posição é o interesse (o sujeito quer o dinheiro, ponto). E "separar as pessoas do problema" é mais fácil de escrever do que de fazer quando a pessoa é o problema — um sócio tóxico, por exemplo.

Terceira: críticos do campo (como James White, que travou um debate clássico com Fisher) apontam que o método subestima o componente distributivo e adversarial de muitas negociações. Há situações de soma zero genuína — preço de um ativo único, divisão de equity numa briga societária — em que a criatividade tem teto e alguém vai levar a maior fatia. Aí o que decide é poder, alavancagem e BATNA, não harmonia de interesses.

Quarta: o método foi desenhado numa cultura específica (americana, direta, contratual) e nem sempre traduz bem para contextos de alta hierarquia, relacionamento de longo prazo ou comunicação indireta.

A leitura madura é: principled negotiation é o seu modo padrão, mas você precisa do BATNA forte como rede de segurança e da gramática de poder como plano B.

Como aplicar no seu dia a dia

Numa empresa com várias frentes, quase tudo passa por uma mesa de negociação. Fisher entra na rotina assim:

BATNA antes de qualquer mesa. Regra inegociável: nenhuma negociação de fornecimento, aquisição ou entrada de sócio começa sem que você tenha escrito, em uma linha, qual é a sua melhor alternativa caso o acordo não saia. Antes de negociar contrato com um fornecedor, tenha a cotação do concorrente na gaveta. Antes de sentar com um possível sócio, saiba se consegue tocar o projeto sozinho e a que custo. O BATNA escrito faz duas coisas: dá serenidade para não fechar um mau acordo por ansiedade, e diz exatamente até onde você pode ir.

Interesses vs. posições em conflito societário. Quando aparece atrito entre sócios — distribuição de lucro, ritmo de reinvestimento, quem manda em quê —, a tentação é brigar pela posição ("eu decido o capex"). O exercício de Fisher é parar e perguntar: qual o interesse embaixo disso? Geralmente é controle de risco, reconhecimento ou liquidez. Quase sempre há um arranjo (comitê, gatilho de aviso, política de payout, cláusula de saída) que atende o interesse sem entregar o controle operacional. Brigar por posição quebra sociedade; resolver interesse a preserva.

Critério objetivo para tirar emoção do preço. Numa aquisição de ativo, não discuta "acho que vale X". Traga o múltiplo do setor, o histórico de resultado, o laudo de terceiro. Ancorar em critério externo transforma uma queda de braço em uma conversa técnica — e deixa você firme sem parecer arrogante.

Opções criativas em vez de disputa por preço cheio. Numa negociação de contrato grande, em vez de brigar por preço cheio antecipado, invente opções: preço escalonado por volume, desconto atrelado a contrato plurianual, piloto pago que converte. Diferença de percepção de valor vira estrutura de acordo, não impasse.

Para ir além

Comece por: Getting to Yes / Como Chegar ao Sim (Fisher, Ury & Patton). É curto, prático e mudou o jogo. Leia com caneta e aplique na próxima negociação real da semana.

Depois: Getting It Done: How to Lead When You're Not in Charge (Fisher com Sharp e Richardson, 1999), para liderar e influenciar sem autoridade formal — situação diária de qualquer operador de portfólio. E Beyond Reason: Using Emotions as You Negotiate (Fisher com Daniel Shapiro, 2005), que cobre exatamente a parte emocional que o livro original tratava de leve.

Avançado: International Conflict for Beginners (1969), o Fisher pré-Getting to Yes, mostrando as raízes do método em conflito internacional; e os debates acadêmicos Fisher × James White sobre os limites da negociação por princípios — leitura que cura qualquer ingenuidade.

Conexões no vault

  • Negociacao e Influencia
  • Frameworks
  • william-ury — co-autor de Getting to Yes, aprofundou o BATNA e cobriu o caso do oponente difícil em Getting Past No.

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