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Negociação e Influência10 / 20
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James Sebenius e David Lax — a negociação que se ganha longe da mesa

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"Não importa quantas jogadas certas você faça na mesa — por melhor que leia a linguagem corporal, construa confiança, enquadre argumentos, faça ofertas e contraofertas — fazer isso na mesa errada pode minar seus resultados." — David Lax e James Sebenius, base de 3-D Negotiation (2006)

O essencial em 30 segundos

Quase tudo que se ensina sobre negociação acontece dentro de uma sala: como ler o outro, enquadrar uma proposta, ancorar, concedar, fechar. David Lax e James Sebenius construíram uma carreira mostrando que essa é a parte menos importante — e a última. Quando você finalmente se senta, a maior parte do jogo já foi jogada: as partes já foram escolhidas, os assuntos já foram definidos, a ordem já foi estabelecida, a melhor alternativa de cada lado já foi formada. Se esse "setup" estiver errado, nenhuma genialidade tática te salva. Você pode ser o melhor jogador de pôquer do mundo e ainda perder se sentou na mesa errada.

A dupla organizou isso em três dimensões. A primeira é a tática à mesa — o que todo mundo já estuda. A segunda é o design do acordo — como estruturar os termos para criar e capturar valor de forma duradoura. A terceira, a contribuição mais original deles, são os movimentos longe da mesa: agir, antes de negociar, para garantir que as partes certas tratem dos assuntos certos, na sequência certa, com as alternativas de não-acordo certas, na mesa certa — uma mesa que você mesmo montou. Para quem opera capital de verdade, a virada mental é esta: pare de perguntar "como eu negocio melhor?" e comece por "quem deveria estar nesta negociação, em que ordem, sobre o quê — e como eu desenho isso antes de qualquer reunião?".

Quem são

David A. Lax formou-se em estatística em Princeton em 1975, magna cum laude, com tese de graduação orientada por John Tukey. Fez pós-graduação em Harvard sob Donald Rubin e Frederick Mosteller, concluindo o mestrado em 1978 e o doutorado em estatística em 1981. De 1981 a 1987 foi professor assistente na Harvard Business School, onde lecionou o primeiro curso da escola dedicado exclusivamente à negociação e cofundou, com James Sebenius e Howard Raiffa, o Harvard Negotiation Roundtable. Depois tirou licença e foi para Wall Street: trabalhou num banco de investimento especializado em reestruturação de indústrias sindicalizadas e na First City Capital, onde analisou e negociou investimentos de private equity, joint ventures e acordos de sociedade. Essa passagem pelo mundo real dos deals é decisiva — a teoria deles não saiu só do laboratório, saiu da mesa.

James K. Sebenius é economista. Bacharel summa cum laude em matemática por Vanderbilt, mestre pela escola de engenharia de Stanford e doutor em economia de empresas (business economics) por Harvard. É o Gordon Donaldson Professor de Administração de Empresas na Harvard Business School, foi professor da Kennedy School e atua como vice-presidente do comitê executivo do Program on Negotiation (PON) na Harvard Law School. Sua obra individual inclui Negotiating the Law of the Sea, premiado, e, mais recentemente, Kissinger the Negotiator — fruto de um projeto em que ele entrevistou ex-secretários de Estado dos EUA (Kissinger, Baker, Shultz, Albright, Powell, Rice, Kerry) sobre suas negociações mais difíceis.

Em 1996 os dois fundaram a Lax Sebenius LLC, consultoria que assessora corporações e governos em negociações complexas, com clientes como American Express, Intel, Shell e Verizon. Antes da empresa, já haviam escrito juntos o livro que estabeleceu sua reputação acadêmica, The Manager as Negotiator (1986), e mais tarde a obra que sintetizou a abordagem para o grande público, 3-D Negotiation (2006). É a combinação rara de profundidade analítica (estatística, economia, teoria dos jogos, análise de decisão) com a cicatriz de quem fechou negócios de verdade.

A grande contribuição

A grande contribuição de Lax e Sebenius é ter deslocado o centro de gravidade da negociação da tática para a arquitetura — e ter mostrado que as jogadas mais poderosas costumam acontecer fora da sala, antes de qualquer conversa começar.

Em The Manager as Negotiator (1986), eles já haviam formulado a tensão fundamental de toda negociação, que batizaram de dilema do negociador: a tensão permanente entre criar valor (cooperar para fazer o bolo maior) e capturar valor (competir para ficar com a maior fatia). Toda negociação tem as duas forças ao mesmo tempo, e o erro é tratar como se fosse só uma — ou ingênuo demais (só criar e ser espremido) ou predador demais (só capturar e matar o valor que poderia ter sido criado).

Vinte anos depois, em 3-D Negotiation (2006), eles deram a estrutura completa em três dimensões. A 1ª dimensão é a tática à mesa — pessoas, processo, comunicação. A é o deal design: a engenharia dos termos do acordo para destravar valor de forma sustentável, diagnosticando o que cada lado valoriza, econômica e não-economicamente. E a , a marca registrada da dupla, são os setup moves — os movimentos longe da mesa que determinam quem negocia, sobre o quê, em que ordem e contra qual alternativa. A tese é direta: uma vez fixadas as partes e os assuntos, e montada a mesa, boa parte do resultado já está determinada. Logo, o trabalho de maior alavancagem é montar a mesa certa, não jogar melhor numa mesa que você herdou.

As ideias-chave

1. As três dimensões: tática, design e setup

A imagem mais útil que eles deixam é a dos três níveis. A 1-D é o que acontece entre pessoas na sala. A 2-D é o que acontece no papel — a estrutura do acordo. A 3-D é o que acontece no mundo, antes da sala existir. A maioria dos negociadores investe 90% do esforço na 1-D, que é a dimensão de menor alavancagem quando o setup está ruim.

O exemplo é cotidiano: você passa semanas afiando seus argumentos para convencer um diretor que, descobre-se na reunião, não tem autoridade para decidir. Toda a sua tática brilhante foi gasta na mesa errada. Um negociador 3-D teria, antes, mapeado quem realmente decide e desenhado o caminho até essa pessoa. Como eles próprios resumem: por mais certas que sejam suas jogadas, fazê-las na mesa errada mina o resultado.

2. Movimentos longe da mesa (setup moves)

Esta é a ideia-assinatura. Antes de negociar, o negociador 3-D age para garantir que as partes certas estejam envolvidas, tratando dos assuntos certos, na sequência certa, com as alternativas de não-acordo certas, na mesa certa, no momento certo. Isso pode significar trazer um novo player para a mesa, remover alguém que atrapalha, mudar o escopo do que está em jogo, ou alterar a ordem em que você fala com cada parte.

Um caso prático de setup: em vez de negociar de frente com um adversário forte, você primeiro fecha com terceiros que mudam o equilíbrio — assegura um fornecedor alternativo, alinha um sócio, garante um financiador. Quando enfim senta com o adversário, a sua alternativa de não-acordo (o seu "walkaway") melhorou tanto que a conversa já nasce ganha. Você não negociou melhor; você montou uma posição melhor. Lax e Sebenius insistem que esse arsenal de movimentos fora da mesa costuma ter o maior impacto sobre o resultado final.

3. Deal design: a engenharia do valor duradouro

A segunda dimensão trata o acordo como um objeto a ser projetado, não apenas barganhado. Deal design é diagnosticar o que cada lado valoriza — fluxo de caixa, risco, prazo, controle, reputação, opções futuras — e estruturar os termos para que o valor criado seja real e sustentável, não um acordo bonito que desmorona na execução.

Exemplo: duas empresas que discordam sobre o preço de uma aquisição porque discordam sobre o futuro do negócio. Em vez de brigar por um número fixo, o deal design propõe um earnout — parte do preço atrelada ao desempenho futuro. Quem está otimista aceita apostar; quem está cético se protege. A divergência, que travava o acordo, vira a própria estrutura que o destrava. É criar valor a partir da diferença, não apesar dela.

4. O dilema do negociador: criar e capturar ao mesmo tempo

Toda negociação contém a tensão entre cooperar para aumentar o bolo e competir para ficar com a maior fatia. O perigo é que as táticas de captura (blefar, esconder informação, exagerar posições) destroem a confiança necessária para criar valor — e as táticas de criação (abrir o jogo, compartilhar interesses) expõem você a ser explorado por quem só quer capturar.

A saída de Lax e Sebenius não é escolher um lado, é administrar a tensão conscientemente: criar valor de forma protegida, trocando informação de maneira recíproca e gradual, estruturando o acordo para que cooperar seja seguro. O negociador maduro não é o mais simpático nem o mais duro — é o que sabe quando está em qual modo e por quê.

5. Sequência e escopo: o que está na mesa e quem entra primeiro

Dois alavancadores de setup merecem destaque próprio. Sequência: a ordem em que você aborda as partes muda tudo, porque cada "sim" que você junta altera o cálculo do próximo a ser abordado. Conquistar primeiro quem é mais fácil e mais influente cria um momentum que torna o difícil mais fácil depois. Escopo: o que você coloca dentro ou fora da negociação define o espaço de troca. Ampliar o escopo (adicionar assuntos) cria matéria-prima para trocas que aumentam o bolo; reduzir o escopo (isolar um item) pode ser a jogada certa quando a abrangência só serve para travar.

Em suas palavras

"Não importa quantas jogadas certas você faça na mesa — por melhor que leia a linguagem corporal, construa confiança, enquadre argumentos, faça ofertas e contraofertas — fazer isso na mesa errada pode minar seus resultados." — 3-D Negotiation (2006)

"Numa negociação 3-D, você aprende a garantir que as partes certas tratem dos assuntos certos, na sequência certa, diante das opções de saída certas — e na mesa certa, que você montou." — síntese fiel de 3-D Negotiation

"Grandes negociadores precisam estar armados com mais do que táticas e habilidades de mesa. Eles também precisam saber montar a negociação certa." — síntese da abordagem 3-D

"A função fundamental do gestor é obter a cooperação de outras pessoas." — tese central de The Manager as Negotiator (1986)

Limites e críticas

A primeira crítica é a do excesso de engenharia. A abordagem 3-D pressupõe um negociador com tempo, informação e graus de liberdade para remodelar quem está na mesa e qual é o escopo. Em muitas situações reais — um prazo curto, uma contraparte única e inevitável, uma assimetria de poder esmagadora — você não escolhe a mesa, você é arrastado para ela. O setup é uma alavanca poderosa quando existe; nem sempre existe.

A segunda é que a fronteira entre "montar a mesa certa" e manipulação é fina. Recrutar terceiros para piorar a alternativa do outro lado, controlar a sequência para fragmentar uma coalizão adversária — tudo isso é eficaz e tudo isso pode escorregar para o jogo sujo. A obra deles oferece a ferramenta com mais entusiasmo do que oferece a bússola ética para usá-la; é aí que a leitura se beneficia de cruzar com a ética comportamental de max-bazerman.

A terceira é prática: o framework é mais fácil de admirar do que de executar. Mapear stakeholders, desenhar sequências, projetar estruturas de earnout — isso exige uma capacidade analítica e uma paciência que muitos negociadores, sob pressão, não têm. O risco é virar um vocabulário sofisticado que descreve, depois do fato, por que um deal deu certo ou errado, sem de fato mudar o que você faz na próxima segunda-feira.

Como aplicar no seu dia a dia

A mudança mais concreta que essa escola produz é adicionar uma fase de setup explícita antes de qualquer negociação importante — uma etapa que costuma ser pulada direto para a tática. Antes de marcar a primeira reunião, rascunhe num papel: quem são todas as partes que afetam ou são afetadas por este acordo? quem realmente decide? em que ordem você deveria falar com cada uma? qual é o escopo — o que entra e o que fica de fora? e qual é a sua alternativa de não-acordo, e o que você pode fazer fora desta mesa para melhorá-la antes de sentar?

A sequência vira ferramenta consciente. Numa expansão, em vez de ir direto ao dono do ponto mais cobiçado (e mais caro de convencer), feche primeiro o que é mais fácil e alinhe os parceiros que mudam o seu peso — financiamento garantido, fornecimento assegurado. Quando você chega no negociador difícil, sua alternativa já é forte o suficiente para que você possa, de verdade, levantar da mesa. Com um fornecedor estratégico é o mesmo: a negociação muda completamente se você chega com uma fonte alternativa já encaminhada. Não é negociar mais duro; é montar uma mesa em que negociar duro nem é necessário.

O deal design é onde mais se deixa dinheiro na mesa por brigar só por preço. Quando há divergência sobre quanto algo vale — a compra de um ativo, a entrada de um cliente grande —, pergunte se a divergência pode virar estrutura: preço atrelado a desempenho, contrato escalonado por adoção, condições que protejam o cético e recompensem o otimista. A diferença de visão, que travava, passa a ser o mecanismo que destrava.

E o dilema do negociador dá uma régua para o estilo. Você não precisa decidir, de uma vez por todas, se é "duro" ou "colaborativo". Precisa saber, em cada momento da conversa, se está no modo de criar valor (e então abre informação de forma recíproca e procura trocas) ou no modo de capturar (e então protege sua posição). O erro caro é misturar os dois sem perceber — abrir demais quando o outro só quer capturar, ou competir tão cedo que mata o valor que poderiam ter criado juntos. A consciência de em qual modo você está, e por quê, é a aplicação mais usada no dia a dia.

Para ir além

Comece por 3-D Negotiation: Powerful Tools to Change the Game in Your Most Important Deals, de David Lax e James Sebenius (2006). É a síntese acessível das três dimensões e a melhor porta de entrada — especialmente os capítulos sobre setup moves, que contêm a contribuição mais original.

Depois leia The Manager as Negotiator (1986) para a fundação conceitual, sobretudo o dilema do negociador e a dinâmica de criar versus capturar valor. É mais denso e mais teórico, mas é a raiz de tudo que veio depois.

Avançado: Kissinger the Negotiator (2018), de Sebenius com Nicholas Burns e Robert Mnookin, e os artigos de Sebenius no Negotiation Journal e na Harvard Business Review. Para quem quer ver a teoria do setup e da sequência aplicada à diplomacia de alto nível, é o estudo de caso definitivo.

Conexões no vault

  • Negociacao e Influencia — índice da área
  • max-bazerman — enquanto Lax e Sebenius cuidam da arquitetura do acordo, Bazerman cuida do negociador e dos vieses que o sabotam; são complementares
  • deepak-malhotra — a tática e a psicologia à mesa, a 1ª dimensão da estrutura 3-D
  • daniel-kahneman — a psicologia da decisão que ajuda a entender por que o setup importa tanto: quando você senta, seu julgamento já está enquadrado

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