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Negociação e Influência18 / 20
PensadoresNegociação e InfluênciaParte 18 de 20

Roger Schwarz — como você pensa é como você facilita

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"Mutual learning is about transparency, curiosity and compassion. Instead of making all the decisions on your own, you share your thoughts and reasoning with team members and ask for their perspectives." (Roger Schwarz, via Edward Lowe Foundation)

O essencial em 30 segundos

Roger Schwarz é o psicólogo organizacional que melhor explicou por que reuniões inteligentes, cheias de gente competente, produzem decisões medíocres. A causa não está nas pessoas nem nos fatos: está na mentalidade silenciosa com que cada um entra na sala. Schwarz dá nome a duas dessas mentalidades. A primeira, controle unilateral (unilateral control), parte de um pressuposto que quase ninguém admite em voz alta: "eu entendo a situação, você não; eu estou certo, você está errado; eu vou vencer". A segunda, aprendizado mútuo (mutual learning), parte de outro: "eu tenho alguma informação, você também; cada um de nós pode ver coisas que o outro não vê". A tese central de Schwarz é desconfortável e libertadora ao mesmo tempo: a maioria de nós acredita operar em aprendizado mútuo, mas age em controle unilateral — e o grupo lê a ação, não a intenção. Para quem dirige equipes e negocia o tempo todo, a contribuição prática é direta: você não conserta conversas difíceis melhorando a retórica; você as conserta trocando a mentalidade de onde a retórica nasce.

Quem é

Roger Schwarz é psicólogo organizacional, presidente e CEO da Roger Schwarz & Associates, e consultor de empresas globais, agências do governo federal norte-americano e organizações internacionais sem fins lucrativos. Sua reputação se construiu menos sobre uma teoria de bestseller e mais sobre uma prática: décadas facilitando grupos reais — diretorias travadas, equipes executivas que se sabotam, times técnicos que não conseguem falar sobre o que importa — e destilando dessa experiência um modelo replicável.

Seu trabalho seminal é The Skilled Facilitator (Jossey-Bass), um manual abrangente para consultores, facilitadores, gestores, treinadores e coaches, hoje na terceira edição. É o tipo de livro que circula sublinhado nas mãos de quem facilita workshops para viver. Em 2013 ele publicou Smart Leaders, Smarter Teams: How You and Your Team Get Unstuck to Get Results (Jossey-Bass), que move o foco do facilitador externo para o próprio líder — a ideia de que o gestor precisa facilitar a si mesmo antes de facilitar os outros. É também coautor de The Skilled Facilitator Fieldbook (Jossey-Bass, 2005), a versão prática e cheia de exercícios do primeiro livro.

O que distingue Schwarz de boa parte da literatura de liderança é a honestidade metodológica. Ele não vende carisma nem "presença". Ele aponta para os pressupostos que carregamos sem perceber e mostra, com exemplos linha a linha, como esses pressupostos vazam para a linguagem, contaminam a confiança e produzem exatamente o resultado que dizíamos querer evitar. É um trabalho que deve muito à tradição de Chris Argyris e Donald Schön sobre raciocínio defensivo e teorias-em-uso, e que dialoga abertamente com Getting to Yes — Schwarz afirma que seus comportamentos para aprendizado mútuo se apoiam no trabalho dos autores de Harvard sobre interesses versus posições.

A grande contribuição

A grande contribuição de Schwarz é ter transformado uma intuição vaga — "reuniões ruins são culpa da atitude das pessoas" — em um diagnóstico preciso e acionável. Ele percebeu que toda equipe opera a partir de um mindset, um conjunto de pressupostos e valores fundamentais que governa silenciosamente como as pessoas pensam e agem. Esse mindset não é um detalhe de personalidade; é o sistema operacional invisível da conversa. E ele vem em duas versões.

No mindset de controle unilateral, o objetivo de fundo é vencer e não perder. O líder diz às pessoas o que fazer, decide sem consultar, precisa dominar, age "racionalmente" suprimindo emoções e — o ponto crucial — assume que entende a situação e que os outros não. Os resultados desse mindset são previsíveis: as pessoas se calam ou se defendem, informação relevante não circula, e o grupo toma decisões piores com mais conflito disfarçado de cordialidade.

No mindset de aprendizado mútuo, o pressuposto inicial é outro: cada pessoa tem parte da informação, cada uma pode enxergar o que as demais não enxergam, e as diferenças são oportunidades de aprender, não ameaças a derrotar. Esse mindset gera transparência, curiosidade, escolha informada (informed choice), responsabilização (accountability) e compaixão. E os resultados também são previsíveis, só que na direção oposta: desempenho mais sólido, relações de trabalho mais fortes e maior bem-estar individual.

O insight que amarra tudo, e que dá título a um dos capítulos de The Skilled Facilitator, é este: como você pensa é como você facilita ("How You Think Is How You Facilitate"). Você não consegue manter um mindset de controle unilateral por dentro e produzir uma conversa de aprendizado mútuo por fora. O grupo sente a contradição. A mentalidade vaza.

As ideias-chave

1. Os dois mindsets, e o abismo entre o que pregamos e o que praticamos

A descoberta mais incômoda de Schwarz — herdada de Argyris — é que quase todo mundo declara valores de aprendizado mútuo ("quero o melhor de cada um", "estou aberto a feedback") e executa comportamentos de controle unilateral. Você diz que quer ouvir, mas faz perguntas que já contêm a resposta. Diz que está aberto, mas conduz a reunião para a conclusão que já tinha. A lacuna entre a teoria esposada e a teoria-em-uso é o ponto cego central da liderança.

Exemplo no portfólio: você convoca a equipe da operação de recarga para decidir se a expansão de pontos prioriza corredores rodoviários ou centros urbanos. Você abre dizendo "quero ouvir todo mundo, decisão aberta". Mas já formou opinião por corredores e, sem perceber, só faz perguntas que testam objeções à sua tese: "vocês não acham que o urbano tem ticket baixo demais?". A equipe lê o sinal em três minutos e para de trazer dados que contrariam você. Você sai da sala achando que houve debate. Houve teatro. O mindset venceu a retórica.

2. Transparência: dizer o raciocínio, não só a conclusão

Em aprendizado mútuo, você compartilha não apenas o que pensa, mas por que pensa — os dados e as inferências que o levaram até ali. Transparência aqui não é despejar todas as emoções; é tornar visível a cadeia de raciocínio para que os outros possam testá-la, completá-la ou corrigi-la.

Exemplo no portfólio: numa negociação com um fornecedor de equipamentos, em vez de chegar com "esse preço não funciona", você expõe o raciocínio: "no nosso modelo, cada ponto desse valor de capex empurra o payback de 4 para 5,5 anos, e isso muda a ordem em que abrimos as praças. É por isso que estou travado nesse número. Onde você acha que minha conta está errada?". Você não escondeu sua posição — você a abriu para escrutínio. Isso convida o outro lado a resolver o problema com você, não a empurrar contra você.

3. Curiosidade genuína: a pergunta que você não conhece a resposta

A curiosidade de Schwarz é específica: fazer perguntas reais, não retóricas. Uma pergunta genuína é aquela cuja resposta você de fato não tem e quer ter. "Você não acha que deveríamos fazer X?" é controle unilateral disfarçado de pergunta. "O que você está vendo que me faria reconsiderar X?" é curiosidade.

Exemplo no portfólio: um gerente de loja resiste a um novo processo do SaaS de gestão de equipes. O reflexo de controle unilateral é convencer. O reflexo de aprendizado mútuo é perguntar de verdade: "o que no seu dia a dia esse processo quebra que eu não estou enxergando daqui?". Muitas vezes a resposta revela uma falha real do produto — e o "resistente" vira sua melhor fonte de QA.

4. Os oito comportamentos: a mentalidade virando hábito observável

Schwarz traduz o mindset abstrato em oito comportamentos para aprendizado mútuo, que ele antes chamava de "ground rules" e que se apoiam em Getting to Yes: (1) declare sua visão e faça perguntas genuínas; (2) compartilhe toda informação relevante; (3) use exemplos específicos e acorde o sentido das palavras-chave; (4) explique seu raciocínio e sua intenção; (5) foque em interesses, não em posições; (6) teste suposições e inferências; (7) desenvolva ações futuras em conjunto; (8) discuta o indiscutível.

Exemplo no portfólio: o comportamento 8 — "discutir o indiscutível" — é o que destrava sociedades. Quando há um sócio que sente que entrega mais e recebe igual, esse assunto fica anos embaixo do tapete corroendo a confiança. Nomeá-lo, com exemplos específicos (comportamento 3) e raciocínio explícito (comportamento 4), é doloroso uma vez; deixá-lo apodrecer é doloroso para sempre.

5. Facilitar a si mesmo antes de facilitar o grupo

Em Smart Leaders, Smarter Teams, Schwarz faz o giro decisivo: o líder não é um observador neutro da disfunção da equipe — ele é parte dela. O mindset de controle unilateral do chefe é o que mais limita a inteligência do time. Logo, o primeiro trabalho de facilitação é interno.

Exemplo no portfólio: antes de uma reunião difícil sobre metas não batidas, você se pergunta: "qual história eu já contei para mim mesmo sobre por que isso falhou? Que dados eu coletei só para confirmar essa história?". Esse exame de cinco minutos muda o tom de toda a conversa que vem depois.

Em suas palavras

"Mutual learning is about transparency, curiosity and compassion. Instead of making all the decisions on your own, you share your thoughts and reasoning with team members and ask for their perspectives." (via Edward Lowe Foundation)

"How You Think Is How You Facilitate" — título do capítulo de The Skilled Facilitator (3ª ed.) sobre como o controle unilateral mina sua capacidade de ajudar grupos.

Síntese do mindset de controle unilateral, recorrente em sua obra: "Eu entendo a situação; você não. Eu estou certo; você está errado. Eu vou vencer."

Síntese do mindset de aprendizado mútuo: "Eu tenho alguma informação; outras pessoas também. Cada um de nós pode ver coisas que os outros não veem."

O primeiro dos oito comportamentos para aprendizado mútuo: "State your view and ask genuine questions" — declare sua visão e faça perguntas genuínas.

Limites e críticas

A primeira crítica honesta ao modelo é que ele é mais fácil de admirar do que de praticar. Sob estresse, escassez de tempo ou ameaça à própria autoridade, o ser humano regride ao controle unilateral por default — é o modo de baixo consumo cognitivo. Schwarz reconhece isso, mas o gap entre conhecer os oito comportamentos e executá-los numa reunião tensa às seis da tarde é enorme. O modelo exige treino deliberado que a maioria não faz.

Segundo: há contextos em que o aprendizado mútuo é caro ou inadequado. Numa emergência operacional — um vazamento, um incidente de segurança, uma crise de caixa que exige decisão em horas — facilitar perspectivas pode custar tempo que você não tem. O próprio Schwarz não advoga aprendizado mútuo sempre; mas a moldura tende a ser lida como dogma por leitores entusiasmados, e há decisões que pedem comando claro.

Terceiro: o método pressupõe boa-fé razoável dos participantes. Diante de um interlocutor que opera deliberadamente em má-fé — um negociador adversarial, um sócio que mente — transparência total pode ser ingenuidade explorável. A obra de Schwarz é forte para dentro de relações onde existe intenção compartilhada de resolver; é mais frágil como manual de combate.

Por fim, uma crítica de origem: muito do andaime intelectual vem de Argyris e Schön, e parte da comunidade acadêmica vê Schwarz como um excelente tradudor e operacionalizador dessas ideias mais do que como um teórico original. É uma crítica justa — e também irrelevante para quem precisa de algo que funcione na segunda-feira de manhã.

Como aplicar no seu dia a dia

Onde Schwarz mais rende, na prática, é em decisões de equipe com alto custo de erro e alta tentação de você já chegar com a resposta. Numa operação com várias frentes, isso aparece quase toda semana.

Primeiro, abra reuniões de decisão declarando sua visão E o que te faria mudar de ideia. Em vez de "vamos decidir juntos" (que vira teatro quando todos sabem que você já decidiu), diga: "minha inclinação hoje é A, por estes três motivos; o que preciso ouvir de vocês é o que torna A perigoso". Isso é o comportamento 1 — declarar visão e fazer pergunta genuína — e muda o jogo: a equipe sabe onde você está e sente que discordar é o trabalho, não a rebeldia.

Segundo, em negociações com fornecedores e parceiros, troque o reflexo de esconder raciocínio pelo de expor o modelo. Mostrar como o número do outro lado impacta seu payback transforma a negociação em um problema conjunto. Não entregue o jogo — entregue a lógica, e convide o outro a atacar a lógica, não você.

Terceiro, num produto usado por quem está na ponta, trate a resistência dos usuários como dado, não como ruído. A pergunta "o que esse processo quebra no seu dia que eu não vejo?" é curiosidade genuína convertida em pipeline de produto. Vários dos melhores ajustes de roadmap vêm de quem mais reclamou.

Quarto, e mais difícil, use o comportamento 8 — discutir o indiscutível — nas relações de sociedade. Tensões sobre contribuição, retirada e poder de decisão são exatamente o tipo de coisa que o controle unilateral manda varrer para debaixo do tapete "para preservar a relação". Schwarz mostra que é o contrário: o varrer é que apodrece a relação. Nomear cedo, com exemplos específicos e raciocínio explícito, é o que mantém a sociedade viável.

A regra de bolso que fica dele: antes de qualquer conversa difícil, gaste cinco minutos facilitando a si mesmo — qual história você já contou sobre essa situação, e que dados coletou só para confirmá-la. Esse exame é o que impede a sua mentalidade de vazar e destruir a conversa antes mesmo de ela começar.

Para ir além

Comece por: The Skilled Facilitator (3ª ed.), especialmente os capítulos sobre os dois mindsets ("How You Think Is How You Facilitate") e sobre os oito comportamentos para aprendizado mútuo. É o núcleo conceitual.

Depois: Smart Leaders, Smarter Teams (2013), para o giro do facilitador externo para o líder que precisa facilitar a si mesmo — o livro mais útil para quem dirige, não apenas modera.

Avançado: The Skilled Facilitator Fieldbook (2005), com exercícios e estudos de caso; e, para ir à raiz, os trabalhos de Chris Argyris e Donald Schön sobre raciocínio defensivo, teorias-em-uso e single-/double-loop learning, que são o solo onde Schwarz plantou.

Conexões no vault

  • Negociacao e Influencia — área-mãe deste estudo
  • robert-cialdini — onde Schwarz é sobre transparência e curiosidade dentro de relações de boa-fé, Cialdini mapeia a influência e a persuasão como mecanismos; leituras complementares e às vezes em tensão
  • chris-argyris — a fonte intelectual direta dos dois mindsets (raciocínio defensivo, teoria esposada vs. teoria-em-uso)
  • getting-to-yes — interesses versus posições, base declarada dos oito comportamentos

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