Open Finance: o Brasil lidera, mas o varejo mal entrou
Em janeiro de 2024, o Open Finance brasileiro tinha 43 milhões de consentimentos ativos. Hoje passou de 100 milhões, movimentando 2,3 bilhões de comunicações por semana, segundo a Febraban. O Brasil construiu um dos maiores sistemas de finanças abertas do mundo. Mas tem um detalhe que quase ninguém comenta: o varejo praticamente não chegou nessa festa.
O que está acontecendo
Open Finance é a regra que devolve ao cliente o controle dos próprios dados financeiros. Com o seu consentimento, um banco ou empresa pode acessar seu histórico em outras instituições — saldo, gastos, investimentos, crédito. A ideia é quebrar o monopólio do dado: se a informação é sua, você decide quem usa.
Na prática, isso destrava ofertas melhores. Um app que enxerga sua vida financeira real pode oferecer crédito mais barato, mostrar onde você paga juros à toa, ou personalizar produtos de verdade. Tudo com consentimento, tudo rastreável.
Os números mostram um sucesso de adoção entre pessoas físicas. Mais de 100 milhões de consentimentos é um patamar global de respeito. O problema está do outro lado do balcão: o PJ é minoria gritante. São cerca de 403 mil consentimentos de empresas, contra 40,8 milhões de pessoas físicas. Ou seja: os negócios, que mais teriam a ganhar com crédito e gestão financeira inteligente, mal começaram a usar.
Para onde isso pode ir
Essa assimetria é exatamente onde mora a oportunidade. A infraestrutura está pronta, robusta, testada por milhões de pessoas. Falta o varejo e os negócios entenderem o que fazer com ela.
Para quem trabalha com fidelidade e relacionamento, Open Finance é o trilho para dois movimentos poderosos. Primeiro, oferta personalizada de verdade: enxergar o comportamento financeiro do cliente (com consentimento) permite recomendar o produto certo na hora certa. Segundo, crédito inteligente: avaliar risco com dados reais, em vez de depender só do score tradicional, abre porta para financiar o cliente direto na operação.
A baixa adesão PJ significa que os primeiros a se mexer terão vantagem. Não é um mercado saturado: é um mercado vazio com a estrada já asfaltada.
Sinais para acompanhar
- Crescimento dos consentimentos PJ — hoje a grande lacuna do sistema.
- Open Finance ligado a programas de fidelidade e cashback — o cruzamento de dado financeiro com hábito de compra.
- Novos produtos de crédito embarcado em apps de varejo, usando dados abertos.
- Integração com Pix e, no futuro, Drex, ampliando o que dá para fazer com consentimento.
Por que isso importa pra você
Como consumidor, Open Finance é o que vai te dar ofertas que realmente fazem sentido, em vez do mesmo crédito caro de sempre. Como alguém que trabalha ou quer trabalhar com varejo, é uma das maiores janelas abertas do momento.
Pense num posto com programa de fidelidade. Ele já sabe que você abastece toda semana. Some a isso, com seu consentimento, uma leitura do seu comportamento financeiro, e a oferta deixa de ser genérica: vira o cashback certo, o parcelamento certo, o crédito certo para a sua frota ou para o seu dia a dia. O sistema existe e é dos melhores do mundo. Quem cruzar fidelidade com finanças abertas primeiro vai sair na frente — porque, do lado dos negócios, o campo ainda está quase todo livre.