William Strunk Jr. — o homem que transformou a concisão em dever moral
"Vigorous writing is concise. A sentence should contain no unnecessary words, a paragraph no unnecessary sentences, for the same reason that a drawing should have no unnecessary lines and a machine no unnecessary parts." — The Elements of Style, "Elementary Principles of Composition"
O essencial em 30 segundos
William Strunk Jr. foi um professor de inglês em Cornell que, em 1918, escreveu um manual de quarenta e poucas páginas para os próprios alunos. Não era um livro de gramática descritiva nem um tratado teórico: era uma lista curta e impiedosa de regras de uso e de composição, escrita por alguém que acreditava que escrever mal era, antes de tudo, uma falta de consideração com o leitor. O livro ficou conhecido entre os estudantes como "the little book". Décadas depois, um ex-aluno chamado E.B. White — o mesmo de A Teia de Carlota — revisou e ampliou o texto, e a obra virou Strunk & White, talvez o guia de escrita mais influente da língua inglesa.
A ideia central de Strunk cabe em três palavras que viraram mantra: "Omit needless words" — corte as palavras desnecessárias. Para o operador de um portfólio que vive de memos, e-mails e decisões escritas, essa é menos uma regra de gramática e mais um princípio de gestão: cada palavra que sobra rouba atenção, dilui a decisão e custa tempo de quem lê. Strunk não inventou a concisão, mas foi quem a transformou em dever — quase em ética.
Quem foi
William Strunk Jr. nasceu em 1º de julho de 1869, em Cincinnati, Ohio, o mais velho de quatro filhos sobreviventes de William e Ella Garretson Strunk. Formou-se na Universidade de Cincinnati em 1890 e obteve o doutorado em Cornell em 1896. Passou o ano acadêmico de 1898–99 na Europa, entre a Sorbonne e o Collège de France, estudando morfologia e filologia — a estrutura das palavras e a história das línguas. Não era, portanto, um pedante de regrinhas: era um filólogo de formação ampla, leitor de literatura clássica e de literaturas não inglesas, que conscientemente desdenhava a especialização estreita.
Curiosamente, sua primeira experiência como professor não foi em letras, e sim em matemática, no Rose Polytechnic Institute, em Terre Haute, Indiana, em 1890–91. Talvez não seja coincidência. A estética de Strunk tem algo de engenheiro: a comparação que ele faz entre uma frase bem escrita e "uma máquina sem peças desnecessárias" não é decoração retórica — é a visão de mundo de alguém que entende texto como mecanismo, em que cada componente precisa justificar sua presença.
Strunk ensinou inglês em Cornell por 46 anos. Foi eleito para a Phi Beta Kappa e construiu reputação de erudito tanto na literatura clássica quanto na inglesa. Em 1900 casou-se com Olivia Emilie Locke, com quem teve três filhos — entre eles Oliver Strunk, que se tornaria um musicólogo respeitado. Aposentou-se de Cornell em 1937. Os últimos anos foram difíceis: em 1945 sofreu um colapso, e morreu em 26 de setembro de 1946, em uma instituição psiquiátrica em Poughkeepsie, Nova York. Quando morreu, "the little book" ainda era um objeto quase doméstico, conhecido por seus ex-alunos. A fama mundial viria treze anos depois, postumamente, pelas mãos de um deles.
Vale registrar o que ele não era. Strunk não era um celebridade literária, não publicou romances, não fundou escola de pensamento. Era um professor que se importava obsessivamente com uma coisa só — que seus alunos escrevessem com clareza e economia — e que teve a disciplina de reduzir essa obsessão a um documento curto o bastante para ser memorizado. Há uma lição de gestão aí, antes mesmo de abrirmos o livro: o impacto duradouro de Strunk veio justamente da recusa em escrever um tratado longo.
A grande contribuição
A contribuição de Strunk não foi descobrir que escrita boa é concisa — todo bom escritor sabia disso desde Aristóteles. Foi codificar a concisão em regras operacionais, curtas e acionáveis, dirigidas a quem não é escritor profissional e não tem tempo de virar um.
Em 1918 ele compôs The Elements of Style e, em 1919, o publicou de forma privada para uso em suas turmas de Cornell. Em 1920 saiu uma edição comercial pela Harcourt, Brace and Howe, com cerca de 52 páginas. O tamanho importa: o livro é deliberadamente minúsculo. Ele não tenta cobrir tudo. Tenta cobrir o pouco que resolve a maioria dos problemas — uma aposta de Pareto antes de Pareto virar jargão corporativo.
O segundo ato da história é E.B. White. White havia sido aluno de Strunk em 1919 e tinha esquecido completamente do livrinho. Em 1957, ao escrever um artigo para a The New Yorker, redescobriu a obra do antigo professor — que ele descreveria como um "resumo de quarenta e três páginas do argumento em favor da limpeza, da exatidão e da brevidade no uso do inglês". A Macmillan então o convidou a revisar e modernizar o manual. A edição de 1959, ampliada por White, é a que o mundo conhece como Strunk & White — e que vendeu milhões de cópias.
Aqui há um detalhe que importa para qualquer um que lidere por escrito: a versão consagrada é uma colaboração entre o autor da regra e o praticante exemplar dela. Strunk deu o esqueleto — as regras, o rigor, o "omit needless words". White deu a prova viva — uma prosa tão leve e humana que o próprio livro virou demonstração do que prega. O capítulo final que White acrescentou, "An Approach to Style", abre a porta para algo que Strunk sozinho não dava: a ideia de que, depois de dominar as regras, há voz, ritmo e julgamento. Voltaremos a essa tensão.
As ideias-chave
1. Omit needless words — corte tudo que não trabalha
A regra mais famosa do livro, conhecida como Rule 17 na numeração de Strunk, é "Omit needless words". White contou que era a regra pela qual Strunk era mais apaixonado — que ele "punha o coração e a alma" em ensinar. A formulação completa é o trecho da epígrafe: escrita vigorosa é concisa, e uma frase não deve conter palavra desnecessária pela mesma razão que uma máquina não deve ter peças desnecessárias.
O ponto sutil é a palavra needless. Strunk não manda escrever curto por escrever curto. Ele não é inimigo de frases longas — é inimigo de palavras que não fazem trabalho. Uma frase longa em que cada palavra carrega peso está perfeita. O alvo é o entulho: "a fim de" no lugar de "para", "o fato de que" no lugar de nada, "neste momento presente" no lugar de "agora".
Exemplo concreto, do tipo que aparece num e-mail interno: "Gostaria de aproveitar esta oportunidade para informar a todos que, no que diz respeito ao novo processo de fechamento de caixa nos postos, será necessário que cada gerente proceda à implementação do mesmo a partir do início do próximo mês." Versão Strunk: "A partir do dia 1º, cada gerente de posto adota o novo fechamento de caixa." Saímos de 41 palavras para 14, e a decisão ficou mais clara, não menos.
2. Use a voz ativa
"Use the active voice", diz a regra. A voz ativa é mais direta, mais vigorosa e — crucial para quem decide — atribui responsabilidade. "Foi decidido que os preços serão revisados" esconde quem decide e quando. "A diretoria revisa os preços na sexta" tem sujeito, ação e prazo. A passiva é o idioma natural de quem quer se eximir; a ativa é o idioma de quem assume. Num memo de decisão, isso não é detalhe estético — é governança.
3. Faça afirmações de forma positiva
"Put statements in positive form." Strunk pede que evitemos o hábito tímido de dizer o que algo não é. "Não foi um resultado ruim" é fraco e ambíguo. "O resultado superou a meta em 8%" é forte e verificável. A negativa serve para negar; quando usada para afirmar de forma indireta, ela apenas embaça. Num relatório a investidores, cada "não deixou de" ou "não é incomum" deveria acender um sinal vermelho.
4. Mantenha palavras relacionadas juntas
"Keep related words together." A ordem das palavras carrega significado. Quando o sujeito e o verbo se afastam por uma longa cláusula intermediária, o leitor perde o fio. A clareza da estrutura precede a clareza do vocabulário — adianta pouco escolher a palavra perfeita se ela está no lugar errado da frase.
5. A regra acima das regras: escreva de modo a chamar atenção para o sentido, não para si mesmo
No espírito do livro — e mais explicitamente no capítulo que White acrescentou — está a ideia de que o estilo não deve aparecer. O bom estilo é transparente: o leitor enxerga o sentido, não a performance do autor. Para um executivo, isso é libertador. Você não precisa escrever bonito. Precisa escrever de modo que a decisão atravesse o vidro sem distorção.
Em suas palavras
"Vigorous writing is concise. A sentence should contain no unnecessary words, a paragraph no unnecessary sentences, for the same reason that a drawing should have no unnecessary lines and a machine no unnecessary parts." — The Elements of Style
"Omit needless words." — Rule 17, The Elements of Style
"Make every word tell." — The Elements of Style (continuação da Rule 17)
"Use the active voice." — The Elements of Style, "Elementary Principles of Composition"
"Put statements in positive form. Make definite assertions. Avoid tame, colorless, hesitating, noncommittal language." — The Elements of Style
E uma frase de E.B. White sobre o método do antigo professor, que diz tudo sobre o temperamento de Strunk:
White descreveu o livrinho como "a forty-three-page summation of the case for cleanliness, accuracy, and brevity in the use of English." — introdução de White à edição de 1959
Limites e críticas
Seria desonesto vender Strunk como dogma. The Elements of Style recebe, há décadas, críticas sérias — e quem usa o livro como ferramenta de gestão precisa conhecê-las.
A objeção mais conhecida vem de linguistas, e a mais contundente é a do linguista Geoffrey Pullum, que argumentou que vários conselhos do livro são inconsistentes e que o próprio texto de Strunk e White viola as regras que prega. Há um problema técnico recorrente: o livro às vezes confunde voz passiva com outras construções, e condena a passiva de forma mais ampla do que a gramática justifica. A passiva tem usos legítimos — inclusive para focar no objeto da ação quando o agente é irrelevante ("o duto foi inaugurado em março").
Há também a questão da datação. Algumas recomendações de uso são gostos de início do século XX, vendidos como leis eternas. E há o risco pedagógico: tratar regras de estilo como mandamentos pode produzir uma escrita medrosa, em que o autor poda tanto que perde voz e nuance. Concisão levada ao extremo vira telegrama — e nem toda comunicação executiva deve soar como telegrama; um e-mail que precisa construir confiança ou dar más notícias pede calor, não só economia.
A leitura madura, portanto, é esta: Strunk dá os princípios de força — corte, ative, afirme. Mas força não é a única virtude de um texto. Use as regras como filtro de revisão, não como camisa de força de primeira escrita.
Como aplicar no seu dia a dia
Num negócio, você escreve o tempo todo — e quase nada do que escreve é "literatura". São memos de decisão, e-mails de alinhamento, atualizações para investidores, briefings para a operação, especificações de produto. Strunk é a régua para passar em tudo isso, em três movimentos:
Primeiro, a regra dos 30% no decision memo. Escreva o memo inteiro, sem censura, para pensar. Depois aplique "omit needless words" como segundo passe, com a meta explícita de cortar 30% das palavras sem perder uma única ideia. Quase sempre dá. O que sobra costuma ser preâmbulo ("gostaria de aproveitar para"), redundância ("planejamento prévio") e hedge covarde ("acho que talvez seja possível considerar"). Um memo de decisão que recomenda abrir uma nova unidade numa praça nova não pode tremer; tem que afirmar e assumir.
Segundo, voz ativa para fixar responsabilidade. Na comunicação interna, bana o "será feito" e o "foi decidido". Toda linha de ação ganha dono, verbo e data: "O time de expansão fecha o contrato de locação até sexta." Isso resolve metade dos mal-entendidos sobre quem faz o quê — e Strunk deu a regra antes de qualquer framework de accountability.
Terceiro, caça ao jargão na comunicação com investidores. Atualização a investidor é onde mais se acumula entulho de importância: "sinergias", "alavancas de valor", "ativos estratégicos". Cada palavra deve trabalhar — então troque "alavancas de valor" por "três coisas que aumentam a margem" e liste as três. Investidor sério prefere o número à névoa. A concisão, aqui, é sinal de domínio: quem entende de verdade o próprio negócio consegue dizê-lo de forma simples.
O efeito acumulado é cultural. Quando quem lidera escreve enxuto, a organização aprende que clareza é o padrão — e que encher linguiça é, no fundo, uma falta de respeito com o tempo de quem lê. Strunk transformou isso em dever moral há mais de um século. No comando de operações reais, esse dever vira vantagem competitiva: decisões mais rápidas porque são mais claras.
Para ir além
Comece por: The Elements of Style, de William Strunk Jr. e E.B. White (a edição consagrada). É de propósito minúsculo — leia inteiro num voo curto. Foque na seção "Elementary Principles of Composition" e na Rule 17.
Depois: o ensaio introdutório de E.B. White na edição de 1959, em que ele descreve o velho professor e o método. É a melhor demonstração de que regras de concisão, quando bem aplicadas, produzem prosa calorosa — não fria.
Avançado: leia a crítica de Geoffrey Pullum a Strunk & White ("50 Years of Stupid Grammar Advice") como contraponto. Não para abandonar o livro, mas para usá-lo com discernimento — sabendo onde o conselho é princípio sólido e onde é apenas gosto de época. Em seguida, william-zinsser, que pega a bandeira da concisão e a leva para a não-ficção contemporânea com mais nuance sobre voz e humanidade.
Conexões no vault
- Comunicacao — área-mãe deste estudo
- Frameworks — onde mora a régua de revisão "omit needless words" aplicada a memos
- william-zinsser — o herdeiro direto da concisão, com mais ênfase em voz humana e combate ao clutter
- zinsser-on-writing-well — resumo de apoio sobre a linhagem da escrita enxuta de não-ficção