Voltar para o Blog
Comunicação23 / 56
  1. Aaron Sorkin — intenção e obstáculo, ou por que toda mensagem precisa de alguém querendo algo
  2. Andy Matuschak — o livro não falhou em você; você falhou em perceber que o livro não funciona
  3. Annette Simmons — quem conta a melhor história ganha
  4. Annie Dillard — a atenção como forma de oração e a escrita como entrega total
  5. Bret Victor — contra as ideias mortas na página
  6. Carmine Gallo — o engenheiro reverso dos grandes comunicadores
  7. Chip Heath & Dan Heath — por que algumas ideias colam e outras morrem
  8. Chris Anderson — o curador que transformou a palestra numa transferência de ideias
  9. Christopher Vogler — o homem que transformou o mito em um memorando de sete páginas
  10. Cícero — o homem que transformou falar bem em uma engenharia
  11. Contardo Calligaris — o divã na primeira página do jornal
  12. Antônio Prata, Tati Bernardi e Gregório Duvivier — a crônica na velocidade da timeline
  13. Kerry Patterson, Joseph Grenny, Ron McMillan e Al Switzler — como falar quando há tudo em jogo
  14. Dale Carnegie — o homem que codificou a simpatia (e por que isso é perigoso)
  15. David Foster Wallace — a atenção como o ato mais político que existe
  16. Derek Sivers — a comunicação como destilação radical
  17. Douglas Stone, Bruce Patton e Sheila Heen — as três conversas que estão acontecendo enquanto você acha que está tendo só uma
  18. Edward Tufte — o homem que ensinou os dados a falar sem mentir
  19. Eliane Brum — a escuta radical e o extraordinário escondido no comum
  20. Garr Reynolds — o silêncio como argumento
  21. Gary Provost — escreva música: o ritmo como ferramenta
  22. George Orwell — escrever claro é o primeiro ato de honestidade
  23. George Saunders — escrever como sintonizar o leitor que vive dentro de você
  24. Hans Rosling — quando os dados ganham movimento, a visão de mundo muda
  25. Helen Sword — caça aos mortos-vivos da sua prosa
  26. James Baldwin — a voz incandescente e a verdade que não se pode adiar
  27. Jerry Weissman — o homem que ensinou os números a persuadir
  28. Joan Didion — a precisão fria e o detalhe que denuncia tudo
  29. João Cabral de Melo Neto — o engenheiro que ensinou a palavra a pagar aluguel
  30. John McPhee — a estrutura é o osso que ninguém deve ver
  31. John Truby — a história não é um molde, é um organismo
  32. Susan Scott — a conversa é o relacionamento
  33. Susan Cain — a comunicação dos quietos num mundo que premia os falantes
  34. Steven Pinker — escrever bem é um ato de empatia treinada
  35. Scott Alexander — escrever para pensar melhor, não para vencer
  36. Sam Harris — precisão como respeito ao interlocutor
  37. Ruy Castro — pesquisa densa, narrativa que prende: o biógrafo como engenheiro da história
  38. Roy Peter Clark — o homem que transformou a escrita em caixa de ferramentas
  39. Robert McKee — o engenheiro da história, ou por que toda marca vive de um gap
  40. Quintiliano — credibilidade não se atua, se constrói pelo caráter
  41. Paul Graham — Escrever é a forma mais barata de pensar com clareza
  42. Patrick Winston — o professor de IA que ensinou o MIT a falar
  43. Patrick Collison — curiosidade pública como vantagem competitiva
  44. Nancy Duarte — a estrutura secreta de toda grande apresentação
  45. Michel de Montaigne — o homem que inventou pensar por escrito
  46. Marshall Rosenberg — a linguagem da vida
  47. Maria Popova — A curadora que transformou a leitura em pensamento
  48. Machado de Assis — a economia, a ironia e o leitor como cúmplice
  49. Lisa Cron — por que o cérebro foi feito para a história, e o que isso muda na sua comunicação
  50. Kazuo Ishiguro — o que se omite comunica mais do que o que se diz
  51. Joseph Campbell — o homem que descobriu que toda história é a mesma história
  52. Tim Ferriss — o arquiteto da pergunta que destrava o especialista
  53. Trey Parker — o homem que matou o "e depois", ou por que toda apresentação precisa de causa
  54. Verlyn Klinkenborg — a frase como unidade de pensamento
  55. William Strunk Jr. — o homem que transformou a concisão em dever moral
  56. William Zinsser — a não-ficção como ofício, e a clareza como respeito
PensadoresComunicaçãoParte 23 de 56

George Saunders — escrever como sintonizar o leitor que vive dentro de você

11 min de leitura
Compartilhar
Pensadores

"Essentially, the whole process is: intuition plus iteration." (George Saunders, sobre revisão)

O essencial em 30 segundos

George Saunders é um dos contistas mais importantes vivos da língua inglesa, vencedor do Booker Prize de 2017 com o romance Lincoln in the Bardo, e há mais de vinte anos professor de escrita criativa na Universidade de Syracuse. Mas o que o torna indispensável para quem se interessa por comunicação não são os prêmios — é o método que ele revela em A Swim in a Pond in the Rain (2021), seu livro sobre como ler e escrever, construído a partir do curso que dá sobre o conto russo do século XIX. A tese de Saunders desmonta o mito do escritor genial que sabe de antemão para onde vai. Para ele, escrever bem é, antes de tudo, revisar bem — e revisar é um processo quase mecânico de honestidade: você lê o que escreveu como se fosse um estranho, percebe a reação que aquilo provoca em você, confia nessa reação e conserta. Repete milhares de vezes. Ele chama isso de "intuição mais iteração". O resultado é uma teoria da escrita centrada não no ego do autor, mas na experiência do leitor — e por isso mesmo é uma teoria da empatia. Para qualquer pessoa que escreve para ser entendida (e quem opera um negócio escreve o dia inteiro), Saunders oferece a ferramenta mais subestimada de todas: ler o próprio texto como quem nunca o viu.

Quem é

George Saunders nasceu em 2 de dezembro de 1958, no Texas, e cresceu em Chicago. Antes de virar escritor, formou-se em geofísica e trabalhou como engenheiro — uma origem técnica que ecoa no seu jeito quase de engenheiro de descrever o processo de revisão, com "medidores" e "loops de feedback". Em 1988 concluiu o mestrado em escrita criativa em Syracuse, onde estudou com o contista Tobias Wolff, e anos depois voltaria à mesma universidade como professor, posto que ocupa até hoje.

Saunders firmou-se primeiro como contista, gênero em que é considerado um mestre contemporâneo. Coletâneas como CivilWarLand in Bad Decline, Pastoralia e, sobretudo, Tenth of December (2013) consolidaram sua reputação por uma ficção que mistura sátira do capitalismo americano, ternura pelos perdedores e uma voz inconfundível. Em 2017 publicou seu primeiro romance, Lincoln in the Bardo, que toma a morte de Willie, filho de Abraham Lincoln, e imagina o presidente em luto cercado por um coro de espíritos no cemitério onde o menino foi enterrado. O livro ganhou o Booker Prize e foi best-seller. Mas talvez sua obra mais influente sobre o ofício seja A Swim in a Pond in the Rain — o título tirado de uma cena de Tchekhov —, em que ele leva o leitor para dentro de sua sala de aula e, com sete contos de Tchekhov, Turgenev, Tolstói e Gogol, ensina não só a ler, mas a entender por que a ficção mexe com a gente. O livro também alimenta a Story Club, sua publicação no Substack, onde continua o curso para um público aberto.

A grande contribuição

A grande contribuição de Saunders é ter descrito, com clareza incomum, o que de fato acontece quando alguém revisa um texto — e ter colocado a experiência do leitor no centro desse processo. A imagem que ele usa virou célebre: "I imagine a meter mounted in my forehead, with a P on this side ('Positive') and an N on that side ('Negative'). I try to read what I've written the way a first-time reader might." Imagino um medidor montado na minha testa, com um P de um lado (positivo) e um N do outro (negativo); leio o que escrevi como um leitor de primeira viagem leria. A pergunta é só uma: onde está o ponteiro? Se ele cai na zona do N, você admite — e, instantaneamente, uma correção se apresenta: um corte, um rearranjo, um acréscimo. Você ajusta, lê de novo, observa o ponteiro de novo. "Lather, rinse, repeat", brinca ele: ensaboa, enxágua, repete.

O que parece simples esconde uma reorientação filosófica radical. A escrita tradicional gira em torno da intenção do autor: o que eu quis dizer? Saunders inverte. O que importa é o efeito sobre quem lê — e o autor só tem acesso a esse efeito fingindo ser leitor de si mesmo. Ele resume todo o ofício a uma frase: lemos uma linha, temos uma reação a ela, confiamos nessa reação e fazemos algo em resposta, instantaneamente, por intuição. Repetida milhares de vezes, essa microdecisão intuitiva é o que separa um rascunho de uma obra. Não há, segundo ele, um momento de gênio; há um acúmulo obsessivo de pequenas preferências honestas. E como essas preferências são, no fundo, reações de um leitor a um texto, escrever bem acaba sendo um exercício de empatia treinada: você passa horas imaginando como outra pessoa vai sentir cada frase.

As ideias-chave

O medidor P/N: revisar é ler-se como estranho

A ferramenta central de Saunders é o medidor P/N. Em vez de revisar perguntando "isto está gramaticalmente correto?" ou "é isto que eu quis dizer?", ele revisa perguntando "como isto cai sobre um leitor que nunca viu este texto?". Lê uma frase, sente a reação no corpo — interesse ou tédio, confiança ou desconfiança — e mexe o ponteiro. "Where's the needle? If it drops into the N zone, admit it." A parte difícil não é a técnica, é a honestidade: admitir que a sua própria frase é chata. A maioria das pessoas defende o que escreveu; Saunders treinou-se para denunciar. Note que não há análise intelectual nisso — ele insiste que é um impulso, "Ah, sim, assim está melhor".

Intuição mais iteração

"Essentially, the whole process is: intuition plus iteration." A intuição é a leitura instantânea do ponteiro; a iteração é fazer isso milhares de vezes. Saunders desmonta aqui o mito do plano. Ele não decide de antemão o que o texto vai dizer e depois executa; ele descobre o texto revisando-o, ajuste após ajuste, deixando a soma das microdecisões revelar para onde a coisa quer ir. "The writer is one who, embarking upon a task, does not know what to do." O escritor é aquele que, ao começar uma tarefa, não sabe o que fazer — e tudo bem, porque o método não exige saber: exige reagir com honestidade, repetidamente.

Confie na voz que sabe do que gosta

"It's kind of crazy but, in my experience, that's the whole game: (1) becoming convinced that there is a voice inside you that really, really knows what it likes, and (2) getting better at hearing that voice and acting on its behalf." Para Saunders, o jogo inteiro é convencer-se de que existe dentro de você uma voz que sabe muito bem do que gosta, e ficar melhor em ouvi-la e agir em seu nome. Isso retira a pressão de "ter talento" e a substitui por uma prática de escuta interna. Você não precisa ser brilhante; precisa parar de ignorar suas próprias reações genuínas em nome do que acha que "deveria" achar bom.

A ficção como ferramenta moral: empatia treinada

Saunders observa que os russos tratavam a ficção não como ornamento, mas como instrumento ético-moral vital: a leitura te transformava, te fazia uma pessoa mais expansiva e generosa. A mecânica disso é a empatia. Ao escrever sobre a personagem Olenka, de Tchekhov, ele confessa: quanto mais sei sobre ela, menos inclinado me sinto a julgá-la cedo ou com dureza. Conhecer um personagem por dentro corrói o julgamento apressado — e Saunders sugere que ler e escrever bem treina exatamente esse músculo. Numa época de desconexão, ele escreve, ler e escrever é dizer que ainda acreditamos, ao menos, na possibilidade de conexão.

Cada palavra é uma promessa ao leitor

Para Saunders, a prosa funciona como um sistema de expectativa: cada frase cria no leitor uma expectativa sobre a próxima, e o texto vive de honrar ou subverter essas expectativas no momento certo. Por isso o medidor P/N é tão eficaz — ele mede, frase a frase, se a promessa está sendo cumprida. Tédio é uma promessa quebrada; surpresa boa é uma promessa cumprida de um jeito inesperado. Escrever é gerir essa relação de confiança, palavra após palavra.

Em suas palavras

"I imagine a meter mounted in my forehead, with a P on this side ('Positive') and an N on that side ('Negative'). I try to read what I've written the way a first-time reader might." (sobre o método de revisão)

"We can reduce all of writing to this: we read a line, have a reaction to it, trust that reaction, and do something in response, instantaneously, by intuition." (A Swim in a Pond in the Rain)

"The writer is one who, embarking upon a task, does not know what to do." (A Swim in a Pond in the Rain)

"It's kind of crazy but, in my experience, that's the whole game: (1) becoming convinced that there is a voice inside you that really, really knows what it likes, and (2) getting better at hearing that voice and acting on its behalf." (A Swim in a Pond in the Rain)

"To read, to write, is to say that we still believe in, at least, the possibility of connection." (A Swim in a Pond in the Rain)

Limites e críticas

O método de Saunders é poderoso, mas tem pré-condições que ele às vezes subestima. O medidor P/N só funciona se o seu "leitor interno" tiver bom gosto treinado — e gosto se forma lendo muito e bem. Para quem leu pouco, o ponteiro oscila sem calibração: você sente que algo está errado, mas não sabe o quê, e a intuição não basta para consertar. Nesse sentido, a abordagem de Saunders é menos democrática do que parece; ela pressupõe anos de leitura atenta que nem todo mundo tem. É a diferença em relação a alguém como Roy Peter Clark, que oferece técnicas nomeáveis ("ative seus verbos") que funcionam mesmo sem gosto formado.

Há também a questão da escala. "Intuição mais iteração" sobre milhares de microdecisões é viável num conto que você vai burilar por meses; é impraticável no e-mail que precisa sair em dez minutos. O método de Saunders é otimizado para o texto que merece centenas de passagens, não para o volume cotidiano de comunicação prática. E, por fim, alguns críticos apontam que o foco quase exclusivo na reação intuitiva pode resvalar num certo anti-intelectualismo do ofício — como se analisar estrutura, argumento e lógica fosse secundário diante do "sentir o ponteiro". Para ficção, talvez. Para um texto que precisa convencer pela razão, a intuição não substitui o raciocínio explícito.

Como aplicar no seu dia a dia

A lição de Saunders que mais muda a comunicação é também a mais simples de descrever e a mais difícil de praticar: leia o próprio texto como um estranho. Quando você termina uma proposta comercial para um contrato de fornecimento ou um e-mail para um investidor, o impulso é reler procurando confirmação — "está bom, era isso que eu quis dizer". O medidor P/N inverte isso. Releia fingindo ser a pessoa do outro lado, que tem trinta segundos, está de mau humor e não te deve nada. Onde o ponteiro cai para o N — onde você, no lugar dela, sentiria tédio, desconfiança ou esforço — corte ou reescreva. Esse único hábito elimina parágrafos inteiros de autoelogio e jargão que antes pareciam "necessários".

A ideia de "intuição mais iteração" cura uma ansiedade específica: a de precisar saber o argumento perfeito antes de começar a escrever. Escreva uma versão honesta e tosca, leia com o medidor ligado, ajuste, releia. Para um comunicado importante às equipes de ponta, faça três ou quatro passagens em que a única pergunta é "onde isto perde a pessoa que está no atendimento às onze da noite?". Para a descrição de uma funcionalidade nova de um produto, leia imaginando o gestor que vai bater o olho no release e decidir em segundos se aquilo resolve a dor dele. A empatia treinada de Saunders é, no fundo, a mesma coisa que orientação ao cliente: você não vende a funcionalidade que acha incrível, você vende a frase que cai bem sobre quem vai ler. E a parte sobre não julgar cedo ajuda na comunicação interna difícil — antes de escrever um feedback duro, procure conhecer a situação da pessoa por dentro, como Saunders conhece Olenka, e o ponteiro do texto melhora sozinho: fica menos juiz, mais útil.

Para ir além

Comece por: A Swim in a Pond in the Rain: In Which Four Russians Give a Master Class on Writing, Reading, and Life (2021). Leia um conto de cada vez junto com o ensaio de Saunders sobre ele. É o curso de Syracuse no seu colo.

Depois: Tenth of December (2013), a coletânea de contos que mostra a teoria virando prática — você vê a empatia e a voz funcionando na carne. E, para quem quer o método em doses semanais, a newsletter Story Club no Substack, onde ele continua ensinando.

Avançado: Lincoln in the Bardo (2017), o romance vencedor do Booker, para ver até onde a aposta na voz e na polifonia de personagens pode ir. É a prova de conceito mais ambiciosa de tudo que ele prega.

Conexões no vault

  • Comunicacao — a área que organiza estes estudos sobre escrita, leitura e linguagem.
  • roy-peter-clark — o complemento técnico de Saunders: enquanto Saunders ensina a revisar pela reação do leitor, Clark dá as ferramentas nomeáveis da frase. Empatia e ferramenta, as duas pontas do mesmo ofício.

Curtiu como a gente pensa?

É assim que trabalhamos todo dia.

Se esse jeito de pensar é o seu, vem construir com a gente — dá uma olhada nas vagas abertas.

Ver vagas