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Macro e Geopolítica13 / 25
  1. Gustavo Franco — o jurista da moeda
  2. Edmar Bacha — o fabulista da economia
  3. Charles P. Kindleberger — a anatomia da euforia, e por que ela sempre rima
  4. Ben Hunt — o cientista político que descobriu que mercados são feitos de histórias
  5. Adam Tooze — o historiador que lê a crise enquanto ela acontece
  6. Paul Tudor Jones — o trader que ganhou a vida jogando defesa
  7. Noah Smith — o tecno-otimista que faz a conta antes de sonhar
  8. Niall Ferguson — O historiador que lê dinheiro, redes e poder como uma só coisa
  9. Monica de Bolle — A economista que aprendeu imunologia para entender a economia
  10. Matt Levine — o homem que tornou Wall Street legível (e engraçada)
  11. Tim Marshall — o mapa antes da manchete
  12. Will & Ariel Durant — a história em escala longa, ou por que o mercado tem memória de peixe
  13. Yuval Noah Harari — as ficções que nos coordenam
  14. Henry Kissinger — o teórico do equilíbrio que virou réu da história
  15. Hugh Hendry — O contrarian que aprendeu (do jeito mais caro) a não brigar com o banco central
  16. Jim Chanos — O detetive dos balanços e a disciplina de apostar contra
  17. Kyle Bass — O homem que comprou seguro contra o fim do mundo (e o que fazer quando o mundo não acaba)
  18. Lyn Alden — A engenheira que aprendeu a ler o encanamento do dinheiro
  19. Marcos Lisboa — o diagnóstico desconfortável da economia brasileira
  20. Peter Zeihan — o profeta da desglobalização e por que ele acerta no mapa e erra no relógio
  21. Samuel Pessoa — O físico que mede por que o Brasil parou de crescer
  22. Robert D. Kaplan — a vingança da geografia e a disciplina do realismo trágico
  23. Ray Dalio — a máquina de ciclos por trás de impérios e dívidas
  24. Stanley Druckenmiller — coragem para ser porco, disciplina para sobreviver
  25. Sérgio Lazzarini — quem realmente joga o jogo do capital no Brasil
PensadoresMacro e GeopolíticaParte 13 de 25

Yuval Noah Harari — as ficções que nos coordenam

11 min de leitura
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Pensadores

"Se você examinar qualquer cooperação humana em larga escala, sempre descobrirá que ela se baseia em alguma ficção — como a nação, como o dinheiro, como os direitos humanos." (Sapiens, 2011)

O essencial em 30 segundos

Yuval Noah Harari é um historiador israelense que ficou mundialmente conhecido por uma ideia de alcance enorme: a espécie humana domina o planeta não por ser mais forte ou mais inteligente que outros animais individualmente, mas por ser capaz de cooperar em massa, com flexibilidade, em torno de histórias que existem apenas na imaginação coletiva. Dinheiro, nações, empresas, leis, religiões, marcas — nada disso tem existência física; tudo são "ficções compartilhadas". E, no entanto, são exatamente essas ficções que coordenam milhões de estranhos. Em sua obra mais recente, Nexus, Harari estende a tese para as redes de informação e a inteligência artificial, alertando que a IA é a primeira tecnologia capaz de criar e disseminar ficções por conta própria. Para quem opera negócios reais, Harari é desconfortavelmente útil: ele explica que marca, contrato e moeda — a base de qualquer operação — são ficções que funcionam enquanto há confiança.

Quem é

Yuval Noah Harari nasceu em 1976 em Israel. Doutorou-se em História pela Universidade de Oxford em 2002 e é professor do Departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém. Sua formação original é de medievalista e historiador militar — ele começou estudando guerra e a Idade Média, o que dá à sua escrita um senso de longa duração que muitos divulgadores não têm.

A fama veio com Sapiens: A Brief History of Humankind (publicado em hebraico em 2011 e em inglês em 2014), nascido de suas aulas de história mundial para calouros. O livro virou fenômeno global. Seguiram-se Homo Deus: A Brief History of Tomorrow (2016), sobre o futuro da espécie diante da biotecnologia e dos algoritmos; 21 Lessons for the 21st Century (2018), sobre os desafios do presente; e Nexus: A Brief History of Information Networks from the Stone Age to AI (2024), sobre como a informação — não a verdade, mas a informação — construiu e ameaça nossas sociedades. Suas obras venderam dezenas de milhões de exemplares em mais de sessenta idiomas.

Harari é também figura pública influente, presença constante em fóruns globais de tecnologia e política, e cofundou em 2019 a Sapienship, empresa de impacto social voltada a educação e narrativa. Essa biografia importa por um motivo: ele é, ao mesmo tempo, um acadêmico rigoroso na origem e um divulgador de generalizações largas — uma dualidade que pede leitura crítica, como veremos.

A grande contribuição

A grande contribuição de Harari é dar nome e estatuto a algo que sentimos mas raramente articulamos: a maior parte da realidade que organiza nossa vida é inventada, e funciona justamente porque acreditamos coletivamente nela. Ele chama isso de "ordem imaginada" e de "ficções compartilhadas". O argumento central de Sapiens é que a "Revolução Cognitiva" — a capacidade de criar e crer em ficções por volta de 70 mil anos atrás — é o que separou o Homo sapiens dos demais. Chimpanzés cooperam em pequenos bandos; humanos cooperam aos milhões porque acreditam nas mesmas histórias.

O exemplo que ele torna inesquecível é o dinheiro. Uma nota de dinheiro não tem valor intrínseco — é papel, ou um registro num banco de dados. Ela funciona porque todos concordam que funciona. O mesmo vale para a empresa: uma sociedade limitada é uma ficção jurídica, uma "pessoa" que não come, não dorme e não existe fisicamente, mas que pode possuir bens, contratar, ser processada. Nações, direitos humanos, marcas: a mesma lógica. Harari não usa "ficção" como insulto. Ele usa para dizer que essas construções são frágeis e poderosas ao mesmo tempo — frágeis porque dependem de crença, poderosas porque, enquanto a crença dura, movem o mundo.

A contribuição de Nexus aprofunda isso para a era da informação. Harari ataca o que chama de "visão ingênua da informação" — a ideia de que mais informação leva naturalmente à verdade, e a verdade ao poder e à sabedoria. Não, diz ele: a maior parte da informação não representa verdade alguma; erros, mentiras, fantasias e ficções também são informação. O papel histórico da informação não é representar a realidade, e sim conectar — tecer pessoas e coisas em redes. Essa virada é crucial para entender por que a IA, capaz de gerar oceanos de informação convincente sem nenhum compromisso com a verdade, é uma força civilizacional, não apenas uma ferramenta.

As ideias-chave

Ficções compartilhadas coordenam estranhos

Para Harari, a cola da sociedade não é o instinto nem o parentesco, e sim a crença comum em histórias. "Se você examinar qualquer cooperação humana em larga escala, sempre descobrirá que ela se baseia em alguma ficção." Exemplo: todo negócio é um feixe de ficções funcionando. A marca é uma promessa que vive na cabeça do cliente; o contrato é uma ficção jurídica que organiza obrigações; a moeda em que se cobra é a maior ficção compartilhada de todas. Quando você opera postos, recarga e software, não vende apenas litros, eletrons ou linhas de código — vende a confiança de que a promessa será cumprida. Essa confiança é o ativo invisível que torna a coordenação possível, e é também o mais fácil de destruir.

A ordem imaginada nega ser imaginada

Harari escreve que "é uma regra de ferro da história que toda hierarquia imaginada renega suas origens fictícias e alega ser natural e inevitável". As ficções que mais funcionam são as que esquecemos serem ficções — passam a parecer fatos da natureza. Exemplo: uma categoria de mercado consolidada, um modelo de negócio "óbvio", uma forma "natural" de precificar combustível — tudo isso são ordens imaginadas que um dia foram inventadas e que serão substituídas. O perigo competitivo está em tratar o arranjo atual como lei da física. A transição para o veículo elétrico é exatamente o momento em que uma ordem imaginada de décadas (o posto como ponto de venda de líquido) revela ter sido sempre uma convenção, e não um destino.

Dinheiro é a ficção mais universal

"Nem todas as ficções são compartilhadas por todos os humanos, mas pelo menos uma se tornou universal em nosso mundo, e essa é o dinheiro." Marshall lê o mapa físico; Harari lê o mapa da confiança. O dinheiro é o sistema de confiança mais eficaz já criado, porque traduz qualquer coisa em qualquer coisa. Exemplo: num portfólio de energia e mobilidade, a moeda permite comparar o incomparável — investir em mais um ponto de recarga ou em melhorar o software, abastecer estoque ou contratar gente. Essa comensurabilidade é uma ficção tão internalizada que parece óbvia, mas é ela que torna a alocação de capital possível. Entender o dinheiro como tecnologia de confiança, e não como coisa, muda a forma de pensar inflação, crédito e moeda digital.

A informação não é a verdade

Em Nexus: "ao contrário do que diz a visão ingênua da informação, a informação não tem vínculo essencial com a verdade, e seu papel na história não é representar uma realidade preexistente". A informação conecta; e o que conecta pode ser verdadeiro ou falso. Exemplo: numa operação que gera dados o tempo todo — telemetria de recarga, fluxo de clientes, métricas de software —, é tentador supor que mais dados significam mais verdade e melhores decisões. Não automaticamente. Dado ruim conecta pessoas a conclusões erradas com a mesma eficiência que dado bom conecta à verdade. A disciplina de separar informação que representa o real de informação que apenas circula é, hoje, vantagem competitiva.

A IA é a primeira tecnologia que cria ficções sozinha

O alerta de Nexus é que a imprensa, o rádio e a internet difundiam ficções humanas; a IA pode gerar ficções próprias, em escala, sem cansaço e sem compromisso com a realidade. Exemplo: isso é tanto ameaça quanto ferramenta para quem opera. Ferramenta, porque IA bem aplicada acelera atendimento, previsão e gestão. Ameaça, porque a mesma tecnologia pode fabricar confiança falsa — avaliações forjadas, golpes convincentes, manipulação de mercado. Adotar IA sem pensar na camada de confiança é adotar um motor sem freios. A pergunta de Harari para qualquer gestor é: minha IA está conectando meus clientes à verdade, ou apenas conectando-os de forma eficiente a qualquer coisa?

Em suas palavras

"Se você examinar qualquer cooperação humana em larga escala, sempre descobrirá que ela se baseia em alguma ficção — como a nação, como o dinheiro, como os direitos humanos." (Sapiens, 2011)

"É uma regra de ferro da história que toda hierarquia imaginada renega suas origens fictícias e alega ser natural e inevitável." (Sapiens, 2011)

"Nem todas as ficções são compartilhadas por todos os humanos, mas pelo menos uma se tornou universal em nosso mundo, e essa é o dinheiro." (Sapiens, 2011)

"Como você faz as pessoas acreditarem numa ordem imaginada, como o cristianismo, a democracia ou o capitalismo? Em primeiro lugar, você nunca admite que a ordem é imaginada." (Sapiens, 2011)

"Ao contrário do que diz a visão ingênua da informação, a informação não tem vínculo essencial com a verdade, e seu papel na história não é representar uma realidade preexistente." (Nexus, 2024)

Limites e críticas

Harari é brilhante e perigoso pelo mesmo motivo: a escala das suas generalizações. Para abarcar 70 mil anos num só argumento, ele precisa cortar nuances que historiadores e cientistas consideram essenciais. Muitos especialistas o acusam de afirmar com confiança coisas que a evidência sustenta apenas em parte — sobre a Revolução Cognitiva, sobre a agricultura como "a maior fraude da história", sobre a felicidade ao longo do tempo. A própria diretriz de ler Harari criticamente é a leitura correta: trate cada generalização larga como hipótese sedutora, não como fato estabelecido.

Há também a crítica do reducionismo. Dizer que dinheiro, nação e direitos são "ficções" é iluminador, mas pode escorregar para um relativismo raso — como se "ficção" significasse "arbitrário" ou "sem valor". Direitos humanos são uma construção social, sim; isso não os torna menos dignos de defesa. A força de uma ficção compartilhada está justamente em quão bem ela organiza a cooperação e quão justos são seus resultados, não em sua existência física. Harari sabe disso, mas o leitor apressado pode não captar.

Por fim, há a crítica do determinismo tecnológico em Homo Deus e Nexus. Ao projetar futuros de algoritmos oniscientes e IA incontrolável, Harari às vezes subestima a agência humana, a regulação, a fricção institucional e a simples imprevisibilidade. O futuro que ele descreve é uma possibilidade vívida, não uma profecia. A leitura madura usa Harari para enxergar a estrutura — ficções, redes, informação — sem comprar o tom às vezes apocalíptico das conclusões.

Como aplicar no seu dia a dia

Num negócio, Harari funciona como uma lente para o que não se vê no balanço. Primeira aplicação: trate marca, contrato e moeda como infraestrutura de confiança. Toda transação — uma venda, uma assinatura, um contrato renovado — repousa sobre a crença de que a promessa será cumprida. Isso significa que proteger a confiança é proteger o ativo principal, mesmo quando ele não aparece em nenhuma linha contábil. Uma falha de entrega não custa só a venda perdida; custa a corrosão da ficção compartilhada que sustenta todas as próximas vendas.

Segunda aplicação: desconfie da "ordem imaginada" do seu próprio setor. Harari lembra que o arranjo atual — a forma como o produto é vendido, como o serviço se monetiza, como se cobra — é convenção, não lei natural. Quem trata a convenção como inevitável é quem é surpreendido pela transição. Toda troca de tecnologia é a desnaturalização ao vivo de uma ordem que parecia eterna. Planeje como se cada "óbvio" do setor fosse uma ficção com prazo de validade.

Terceira aplicação: a disciplina da informação versus verdade. Sua operação gera dados continuamente, e a tese de Nexus protege da armadilha de confundir volume com verdade. Mais dados não decidem melhor sozinhos; só decidem melhor quando há um processo que separa o que representa a realidade do que apenas circula. Construir essa disciplina é a versão prática do alerta de Harari.

Quarta aplicação: IA como motor que precisa de freios de confiança. Adotar IA para atendimento, previsão e gestão é caminho sem volta. Mas a pergunta de Harari fica afixada na parede: esta IA conecta seus clientes à verdade, ou apenas os conecta com eficiência a qualquer coisa? A resposta governa onde acelerar e onde colocar supervisão humana.

Para ir além

Comece por: Sapiens (2011/2014). É a fundação de tudo. Leia prestando atenção especial aos capítulos sobre ficções compartilhadas, dinheiro e ordem imaginada — são as ideias mais transferíveis para quem decide.

Depois: 21 Lessons for the 21st Century (2018), mais aterrado no presente, e Homo Deus (2016), para a projeção sobre biotecnologia e algoritmos. Leia Homo Deus com a crítica do determinismo tecnológico no bolso.

Avançado: Nexus (2024), o mais relevante para quem pensa em IA e informação como tema estratégico. É onde Harari conecta a tese das ficções à era das redes e dos algoritmos — leitura obrigatória para qualquer gestor que esteja adotando inteligência artificial com seriedade.

Conexões no vault

  • Macro e Geopolitica — área-mãe deste ensaio
  • IA e Tecnologia — onde Nexus, informação e inteligência artificial ganham desdobramento prático
  • tim-marshall — o contraponto perfeito: Marshall lê o mapa físico (rios, montanhas, restrições do território); Harari lê o mapa das ficções (dinheiro, nações, marcas) que coordenam humanos sobre esse território
  • robert-d-kaplan — outra leitura de longa duração, com ênfase na geografia e na história, útil para contrastar com a macro-história de Harari

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