Rubens Ometto Silveira Mello — o apostador da cana como ponte para a transição
"Estamos apanhando e pagando por isso." — Rubens Ometto, sobre o esforço pioneiro da Raízen em etanol de segunda geração (MegaWhat)
O essencial em 30 segundos
Rubens Ometto Silveira Mello é o homem que transformou usinas de cana — o negócio mais antigo e mais "caipira" do Brasil — em um dos maiores conglomerados de energia do país. Engenheiro de produção pela Poli-USP, controlador do grupo Cosan, ele construiu a Raízen (joint venture com a Shell) e fez dela a maior distribuidora de combustíveis e a maior produtora de etanol e bioenergia do Brasil. Sua tese é uma aposta civilizatória: a transição energética do Brasil não passa primeiro pelo carro elétrico; passa pelo biocombustível. Etanol de cana, e cada vez mais etanol de segunda geração (E2G) feito do bagaço, como ponte de baixo carbono que aproveita a vantagem comparativa brasileira em vez de copiar a receita europeia. Para quem opera postos e recarga no Brasil, Ometto é a prova viva de que existe um terceiro caminho entre "petróleo eterno" e "tudo elétrico amanhã".
Quem é
Rubens Ometto Silveira Mello nasceu em Piracicaba, São Paulo, em 24 de fevereiro de 1950 — daí o apelido carinhoso de "garoto caipira" que ele mesmo cultiva, ironizando uma trajetória que é tudo menos provinciana. Formou-se em engenharia de produção mecânica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, a Poli-USP, e começou a carreira longe da cana: foi executivo no Unibanco entre 1971 e 1973 e, a partir de 1974, integrou o Grupo Votorantim, chegando a diretor financeiro. Essa origem importa. Ometto não é o usineiro que herdou terra e ficou nela; é o engenheiro-financista que entrou no negócio da família, em 1986, com mentalidade de mercado de capitais — e foi isso que mudou tudo.
A partir dali ele liderou um plano de consolidação que beira o épico empresarial. Comprou usina após usina, modernizou gestão, e na década de 2000 transformou a Cosan na maior produtora de açúcar e etanol do Brasil e uma das maiores do mundo. Em 2007, levou a Cosan à Bolsa de Nova York — uma usina de cana negociada em Wall Street, algo impensável até então. Em 2011, deu o lance mais ousado da carreira: fundou a Raízen, joint venture que uniu ativos da Cosan e da Shell, criando de uma vez a maior distribuidora de combustíveis e a maior empresa de etanol e bioenergia do país. A bandeira Shell nos postos brasileiros é, na prática, Raízen — ou seja, é Ometto.
Hoje ele preside o conselho e controla um conglomerado que vai muito além da cana: além da Raízen, o grupo Cosan reúne a Rumo (logística ferroviária), a Moove (lubrificantes), a Compass (gás natural) e participações relevantes — incluindo uma aposta bilionária na Vale. Foi também um dos fundadores da UNICA, a associação que organiza o setor de cana. É, por qualquer métrica, um dos maiores empresários de energia do Brasil — e o mais articulado defensor do etanol como projeto de país.
A grande contribuição
A grande contribuição de Ometto não é uma usina, nem uma fusão. É uma tese de transição energética genuinamente brasileira, sustentada por capital de verdade e não por slides.
O argumento é assim: o mundo decidiu que precisa descarbonizar o transporte. A resposta dominante, vinda da Europa e dos Estados Unidos, foi a eletrificação — substituir o motor a combustão pela bateria. Ometto não nega que a eletrificação avança. Ele questiona se ela é a resposta para o Brasil, e responde que não. O Brasil tem uma vantagem comparativa que quase nenhum país tem: sol, terra, água e um século de aprendizado em cana. Transformar cana em etanol é capturar energia solar via fotossíntese e entregá-la líquida, na bomba, com balanço de carbono muito favorável. Por que abandonar a única fonte renovável em que somos campeões mundiais para correr atrás de uma tecnologia — a bateria — em que dependemos de cadeias de suprimento que não controlamos?
A peça mais sofisticada da tese é o etanol de segunda geração (E2G). O etanol comum (1G) vem do caldo da cana. O E2G vem do bagaço e da palha — o resíduo que sobra. Ometto investiu pesado nisso: a Raízen aportou cerca de R$ 9 bilhões em capital para construir plantas de E2G. O ganho é elegante e tipicamente de engenheiro: ao trocar a fonte de energia que alimenta as caldeiras das usinas (substituindo o bagaço por outra fonte), libera-se o bagaço para virar etanol 2G, gerando um aumento da ordem de 35% de produto por hectare sem plantar um pé de cana a mais. É mais combustível renovável da mesma terra. Em um mundo obcecado por uso de solo e desmatamento, isso é quase uma alquimia.
E há a leitura de mercado que fecha o raciocínio: parte relevante dessa produção de E2G já é vendida em euros, por preços que chegam ao dobro do etanol de primeira geração, porque os incentivos fiscais europeus pagam o prêmio do baixo carbono. Ometto enxergou antes de quase todo mundo que a descarbonização criaria um mercado premium para o carbono evitado — e posicionou a Raízen para vender exatamente isso.
As ideias-chave
1. A bateria tem um problema físico que ninguém resolve com narrativa
Ometto insiste num ponto técnico que o entusiasmo costuma ignorar: a bateria tem baixa densidade energética. Como ele coloca, é preciso muita bateria para substituir a energia de um tanque de combustível líquido, o que limita autonomia e capacidade de carga do veículo. Para carro de passeio urbano, tudo bem. Para o transporte pesado, para o caminhão que move o agronegócio brasileiro, o líquido renovável continua imbatível em densidade e custo.
Exemplo concreto: Para quem opera postos em rota, isso significa que a frota pesada — caminhões, ônibus — vai demandar combustível líquido por muito mais tempo do que a frota leve. O diesel renovável, o biometano e o etanol têm vida longa exatamente onde o volume e a margem do posto são maiores. Dimensionar a transição do posto pela frota leve urbana é olhar para o cliente errado.
2. O ciclo de vida importa mais que o escapamento
A crítica de Ometto à eletrificação não é sobre o escapamento; é sobre o ciclo de vida inteiro. Quando se contabiliza a fabricação do carro, a fabricação da bateria e a energia que carrega essa bateria, o carro a etanol no Brasil pode emitir menos CO₂ por quilômetro do que um elétrico em matriz suja. Ele chega a fazer a comparação provocativa: mesmo na Noruega, de matriz quase toda hidrelétrica, o elétrico emite na faixa de uma centena de gramas de CO₂ por km, enquanto o carro a etanol hidratado no Brasil pode emitir menos.
Exemplo concreto: Essa é a munição argumentativa para defender que o "verde" da recarga elétrica depende da matriz local. No Brasil, com matriz limpa, o elétrico é de fato limpo — mas o etanol também é, e já está pronto, distribuído e barato. A decisão não é moral; é de eficiência de capital por tonelada de carbono evitada.
3. Mais produto da mesma terra — a obsessão da produtividade
A fixação de Ometto é tirar mais energia de cada hectare. O E2G é a expressão máxima disso: 35% mais etanol sem expandir a área plantada. Num país pressionado por questões de uso de solo e Amazônia, produzir mais energia sem abrir fronteira agrícola é a resposta à principal crítica ambiental ao etanol.
Exemplo concreto: Para o portfólio, isso ensina a métrica certa. Não é "litros vendidos"; é "energia renovável entregue por unidade de recurso". O mesmo raciocínio se transporta para a recarga: a pergunta não é quantos eletropostos, mas quanta mobilidade descarbonizada por real investido.
4. O carbono vira produto exportável
Ometto entendeu que o baixo carbono não é custo — é receita. A Europa paga prêmio por combustível de baixo carbono via incentivos fiscais, e o E2G da Raízen é vendido em euros por preços muito superiores ao etanol comum. O carbono evitado virou commodity de exportação brasileira.
Exemplo concreto: No mercado interno, o equivalente é a precificação de carbono que a Lei do Combustível do Futuro e os mercados regulados começam a estruturar. Quem produz e distribui combustível de baixo carbono no Brasil está sentado sobre um ativo que vai sendo precificado ao longo da década. O posto que documenta e vende a pegada do que entrega se posiciona para esse prêmio.
5. Pioneirismo dói — e é a vantagem
A frase "estamos apanhando e pagando por isso", dita sobre o E2G, é uma confissão rara num bilionário: a tecnologia de segunda geração é difícil, cara e atrasou. Mas Ometto a mantém porque entende que o pioneiro paga a curva de aprendizado e colhe a barreira de entrada. Quem domina o E2G primeiro tem dez anos de vantagem quando a tecnologia maturar.
Exemplo concreto: A lição estratégica é sobre quando apanhar de propósito. Há apostas no portfólio — recarga rápida em corredores, integração de serviços — que vão dar prejuízo no começo e construir posição depois. Saber separar o "apanhar que constrói fosso" do "apanhar que só sangra" é a arte que Ometto pratica com a cana.
Em suas palavras
"Estamos apanhando e pagando por isso." (MegaWhat, sobre o pioneirismo da Raízen em etanol de segunda geração)
"A Cosan não vai acabar, absolutamente." (novaCana, sobre o futuro do grupo)
"O valor da Amazônia tem de ser precificado." (entrevista replicada por Brasilagro/Terra)
Sobre a densidade da bateria: "a bateria tem, para piorar, baixa densidade energética. É preciso muita bateria para substituir a energia de um tanque de combustível líquido, o que limita a autonomia do veículo e a sua capacidade de carga." (registro em novaCana)
Sobre o E2G vendido na Europa: a produção é vendida em euros, pelo dobro do preço do etanol de primeira geração, porque os incentivos fiscais daqueles países permitem esse prêmio. (síntese de declarações em coberturas do setor, 2024)
Limites e críticas
Ometto é brilhante, mas não é desinteressado — e a crítica mais óbvia é estrutural.
O conflito de interesse é total. Ele é o maior produtor de etanol e o maior distribuidor de combustível do país. Quando defende que a transição deve ser via biocombustível e não via eletrificação, está defendendo, com argumentos técnicos sólidos, exatamente o negócio dele. Os números do ciclo de vida podem ser verdadeiros e a conclusão pode ser autointeressada ao mesmo tempo. Ler Ometto exige separar o dado da conveniência.
O E2G atrasou e custou caro. A própria confissão "estamos apanhando" é honesta, mas relativiza a tese. A promessa do etanol de segunda geração é antiga; a entrega em escala competitiva demorou muito mais do que o prometido. Quem apostou cedo demais no E2G como salvação pagou caro. A tecnologia milagrosa de hoje foi a tecnologia frustrante de ontem — e talvez a de amanhã.
A monocultura tem custos reais. O etanol resolve carbono, mas a cana levanta questões de uso de solo, água, mecanização e trabalho que não desaparecem porque o produto final é verde. Ometto responde com produtividade (mais por hectare), mas críticos do agronegócio apontam que a escala da cana tem externalidades que o discurso do baixo carbono tende a varrer para baixo do tapete.
O "ou isto ou aquilo" pode ser falso. Ao contrapor etanol e elétrico, Ometto às vezes constrói uma escolha binária que a realidade não impõe. O futuro provável é híbrido — flex que roda etanol, híbridos, elétricos urbanos, líquido renovável no pesado. Quem comprar a dicotomia inteira pode subinvestir no elétrico exatamente onde ele vai ganhar (frota leve urbana de alta rotatividade).
Como aplicar no seu dia a dia
Ometto é o melhor antídoto contra o reducionismo da transição — e isso tem consequências concretas em cada frente do negócio.
Na rede de postos. A lição central é que o posto de combustível não está morrendo; está mudando de produto. Ometto mostra que o combustível líquido tem futuro longo justamente porque pode ser renovável. Na prática, isso significa tratar o posto como hub multienergia e não como relíquia: etanol cada vez mais protagonista, eventualmente diesel renovável e biometano, e recarga elétrica como mais um bico de abastecimento, não como substituto que mata o resto. A frota pesada que passa na rota vai querer líquido renovável por uma década ou mais; a frota leve urbana vai migrando para elétrico. O posto certo serve as duas, e não aposta tudo numa só.
A segunda lição é sobre carbono como ativo. Se a Europa paga o dobro pelo etanol de baixo carbono, o mercado brasileiro vai, no seu ritmo, começar a precificar a pegada do combustível. Documentar a origem e a intensidade de carbono do que se vende deixa de ser burocracia e vira preparação para um prêmio futuro. O posto que sabe contar a história de carbono do litro que vende se posiciona antes da régua chegar.
Na recarga de veículos elétricos. Ometto obriga a uma honestidade desconfortável: a recarga elétrica é real, mas é um nicho de alto valor, não a maré que cobre tudo. A consequência é alocar capital de recarga onde o elétrico vence de fato — frota leve urbana, corredores específicos, captura de cliente premium — e não espalhar eletropostos como se o etanol fosse desaparecer amanhã. O risco que ele ajuda a evitar é o oposto do entusiasta: superinvestir em elétrico e subaproveitar a vantagem renovável que o Brasil já tem na bomba.
Na decisão de capital entre líquido renovável e elétrico. A síntese de Ometto com a de Pires desenha a bússola. De Pires vem a lição de que o líquido fóssil gera caixa por muito tempo e que preço é sinal, não política. De Ometto, a de que esse líquido pode virar renovável e que o Brasil tem uma ponte — o etanol — que a Europa não tem. Junte as duas assim: ordenhe o combustível (cada vez mais renovável) para financiar a entrada cirúrgica no elétrico, no ritmo do mercado brasileiro, não no ritmo da manchete europeia. Ometto é a prova de que dá para descarbonizar ganhando dinheiro — e de que a transição mais inteligente é a que joga com as cartas que o país já tem na mão.
Para ir além
Comece por: as coberturas das entrevistas de Ometto sobre etanol de segunda geração e transição energética (novaCana, MegaWhat, Brasilagro). São acessíveis e mostram a tese central — etanol como ponte — sem jargão financeiro.
Depois: estude a estrutura do grupo Cosan e a formação da Raízen (JV com a Shell, 2011), e leia sobre a Lei do Combustível do Futuro, que é o arcabouço regulatório onde a aposta de Ometto encontra a política pública. Aqui a tese sai do discurso e vira regra de mercado.
Avançado: mergulhe no balanço de carbono comparado (ciclo de vida etanol vs. elétrico) e na economia do E2G — o CAPEX de cerca de R$ 9 bilhões, a curva de aprendizado e a precificação do carbono na Europa. É onde você forma juízo próprio sobre quanto da tese é física e quanto é interesse.
Conexões no vault
- Energia e Mobilidade
- Mercado-Brasil-Estado-Atual
- Regulacao-Brasil
- Tese-10-Anos
- adriano-pires — o contraponto do petróleo: enquanto Ometto lê a transição pela cana e pelo carbono, Pires a lê pelo preço e pelo mercado de combustível fóssil. Os dois juntos cobrem o tabuleiro energético brasileiro.
Fontes consultadas: Wikipédia, novaCana, MegaWhat, novaCana — "A Cosan não vai acabar", Brasilagro/Terra, InvestNews.