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Estratégia e Capital5 / 18
PensadoresEstratégia e CapitalParte 5 de 18

Roger Martin — estratégia é escolha, e quem não escolhe está apenas jogando para participar

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"Strategy is choice. More specifically, strategy is an integrated set of choices that uniquely positions the firm in its industry so as to create sustainable advantage and superior value relative to the competition." (A.G. Lafley & Roger L. Martin, Playing to Win, 2013)

O essencial em 30 segundos

  • Roger Martin é o pensador que transformou estratégia em uma sequência de cinco escolhas concretas — não um documento, não uma visão, não uma planilha de metas, mas decisões duras e interligadas. O nome do método é a cascata de escolhas estratégicas, e o livro que o consagrou é Playing to Win (2013), escrito com A.G. Lafley, ex-CEO da Procter & Gamble.
  • A frase-síntese dele é "strategy is choice". Estratégia é o conjunto integrado de escolhas que posiciona a empresa para vencer. Quem não escolhe — quem quer agradar todo mundo, atuar em todo lugar e vencer de todo jeito — não tem estratégia, tem boas intenções.
  • O coração do método são duas perguntas inseparáveis: where to play (onde competir) e how to win (como vencer ali). A maioria das empresas responde mal a primeira e nem chega à segunda.
  • Sua segunda grande contribuição é o integrative thinking — pensamento integrativo: a capacidade de segurar dois modelos opostos na cabeça e, em vez de escolher um, criar uma terceira solução superior a ambos. É a habilidade que ele observou nos melhores líderes.

Quem é

Roger L. Martin nasceu em 4 de agosto de 1956, no Canadá. Formou-se em economia pela Harvard College (AB) e fez MBA na Harvard Business School. Antes da carreira acadêmica, passou treze anos como diretor da Monitor Company, a consultoria de estratégia fundada por Michael Porter e sócios em Cambridge, Massachusetts — chegando a codirigir a firma por dois anos. É lá, na prática de consultoria de alto nível, que a metodologia da cascata de escolhas nasce, antes de virar livro.

De 1998 a 2013, Martin foi reitor (dean) da Rotman School of Management, da Universidade de Toronto, onde liderou uma transformação que colocou a escola no mapa global e onde hoje é professor emérito. Sob sua liderança, a Rotman virou sinônimo de integração entre estratégia e design thinking. Foi nesse período que ele consolidou parte de sua obra escrita: The Opposable Mind (2007), sobre integrative thinking, e The Design of Business (2009), sobre como o pensamento de design produz vantagem.

A relação com a P&G é central para entender Martin. Quando A.G. Lafley assumiu como CEO da Procter & Gamble, em 2000, a metodologia de estratégia que tinha amadurecido na Monitor tornou-se o processo padrão de estratégia da P&G. Playing to Win é, em essência, o relato de como esse método operou na maior empresa de bens de consumo do mundo — não teoria de gabinete, mas o sistema que orientou decisões de bilhões de dólares. O livro foi reconhecido pelo Thinkers50 como melhor livro do biênio 2012-13.

O reconhecimento se acumulou. Em 2017, o Thinkers50 — o ranking mais respeitado de pensadores de gestão — colocou Martin em primeiro lugar como o pensador de management mais influente do mundo; em 2019, ele apareceu em segundo. Poucos estrategistas vivos têm currículo comparável: a credibilidade do consultor que rodou o método na prática, a do reitor que formou líderes, e a do autor que destilou tudo em frameworks usáveis.

A grande contribuição

A grande contribuição de Martin é ter tornado a estratégia fazível sem trivializá-la. Antes dele, o operador comum oscilava entre dois extremos igualmente inúteis: o planejamento estratégico burocrático (calhamaços de metas e orçamentos que ninguém lê) e a visão inspiradora vazia ("ser a melhor empresa do setor"). Martin ofereceu um caminho do meio rigoroso: cinco escolhas, sempre as mesmas, sempre nessa ordem lógica, que qualquer time pode responder e cobrar.

A cascata de escolhas estratégicas é a espinha dorsal. São cinco perguntas interligadas:

A primeira é winning aspiration — qual é a nossa aspiração de vitória? Não "o que queremos ser", mas o que significa, concretamente, vencer. Martin insiste na palavra "vencer". Grandes organizações escolhem vencer, e não apenas participar. Aspirar a "estar presente" no mercado é o atestado de uma empresa que vai perder devagar.

A segunda é where to play — onde vamos competir? Quais mercados, segmentos, geografias, canais, categorias de cliente. Escolher onde jogar é, sobretudo, escolher onde não jogar. Um campo de batalha que é "todo mundo, em todo lugar" é uma renúncia disfarçada de ambição.

A terceira é how to win — como vamos vencer no terreno escolhido? Qual é a forma específica de criar valor único para o cliente e vantagem sustentável sobre o concorrente. Geralmente isso se resolve em uma de duas direções: ser de custo mais baixo ou ser diferenciado. Where to play e how to win são as duas escolhas centrais, e precisam ser respondidas juntas — uma não faz sentido sem a outra.

A quarta é capabilities — quais capacidades precisamos ter para vencer dessa forma? O conjunto e a configuração de atividades que permitem executar o "how to win". Capacidades não são genéricas; são as poucas coisas em que você precisa ser realmente bom dado o seu jeito de vencer.

A quinta é management systems — quais sistemas de gestão sustentam e medem tudo isso? Os sistemas, estruturas e métricas que mantêm as capacidades de pé e que dizem se a estratégia está funcionando.

O nome "cascata" não é decoração. As escolhas se reforçam de cima para baixo e de baixo para cima: a aspiração informa onde jogar, que informa como vencer, que define capacidades, que exigem sistemas — e a coerência entre elas é o que produz vantagem. Uma escolha brilhante de "where to play" com um "how to win" incompatível não vale nada. A estratégia é o encaixe, não as peças isoladas.

As ideias-chave

Estratégia é escolha — e escolha dói

A tese fundadora de Martin é que estratégia é fazer escolhas, e escolhas verdadeiras envolvem renúncia. "Strategy is choice. Strategy is not a long planning document; it is a set of interrelated and powerful choices that positions the organization to win." A maioria das empresas evita escolher porque escolher é assumir o risco de estar errado e fechar portas. O resultado é a estratégia covarde: estar em tudo, servir todo cliente, perseguir toda oportunidade. Martin chama isso, na prática, de "playing not to lose" — jogar para não perder — que é justamente como se perde devagar.

Where to play / how to win são inseparáveis

O par central da cascata. Onde competir e como vencer são duas faces da mesma decisão, e o erro clássico é tratá-las separadamente — escolher um mercado atraente sem ter uma forma defensável de vencer nele, ou inventar uma forma de vencer que não se encaixa em mercado nenhum. Um "how to win" só existe relativo a um "where to play" específico. Custo baixo é uma forma de vencer em um segmento sensível a preço; é irrelevante num segmento que paga por serviço.

How to win não é o mesmo que capabilities

Martin alerta para uma confusão recorrente, que ele mesmo já dissecou em escritos posteriores: as pessoas descrevem suas capacidades ("temos a melhor equipe", "temos tecnologia superior") achando que isso é o "how to win". Não é. O "how to win" é a lógica de por que o cliente escolhe você e o concorrente não consegue copiar a vantagem. As capacidades são o que sustenta essa lógica. Trocar uma pela outra é o atalho preferido de quem não quer fazer o trabalho duro de definir a vantagem real.

Integrative thinking: a terceira via

Em The Opposable Mind (2007), Martin estuda líderes excepcionais e descobre um traço comum: a capacidade de segurar dois modelos opostos na cabeça ao mesmo tempo, suportando a tensão, sem entrar em pânico para escolher um. Em vez de optar por A ou B, eles geram uma solução C que contém elementos dos dois modelos e é superior a ambos. Isso é integrative thinking. O nome vem de uma adaptação da frase de F. Scott Fitzgerald sobre a marca de uma inteligência de primeira: conseguir manter duas ideias opostas na mente e ainda assim funcionar. Para Martin, isso não é talento místico — é uma habilidade treinável e o motor de toda estratégia criativa.

Estratégia boa é desconfortável

Um sinal que Martin gosta de usar: se a sua estratégia faz todo mundo confortável, ela provavelmente não é estratégia. Uma escolha real deixa parte da organização nervosa, porque fecha caminhos que algumas pessoas queriam manter abertos. O conforto generalizado é sintoma de fluff — de uma "estratégia" que não escolheu nada e por isso não ameaça ninguém.

Em suas palavras

"Strategy is choice. Strategy means saying no to certain kinds of things." (Roger Martin, em entrevistas e palestras sobre Playing to Win)

"The essence of strategy is choosing to perform activities differently than rivals do." (princípio que Martin herda de Porter e reafirma em sua obra)

"Where to play and how to win together make up the heart of strategy and are the two most important choices." (A.G. Lafley & Roger L. Martin, Playing to Win, 2013)

"You can't be all things to all people; if you try, you'll end up being nothing to everyone." (síntese do argumento central de Playing to Win sobre a necessidade de escolher onde jogar)

"Integrative thinking is the ability to face constructively the tension of opposing ideas and, instead of choosing one at the expense of the other, generate a creative resolution of the tension in the form of a new idea that contains elements of the opposing ideas but is superior to each." (Roger L. Martin, The Opposable Mind, 2007)

Limites e críticas

A cascata de Martin é elegante e clara — e por isso mesmo seduz à aplicação mecânica. O risco é o time preencher as cinco caixas como quem responde a um formulário, produzindo respostas plausíveis e genéricas que parecem estratégia mas não cortam nada. "Where to play: clientes que valorizam qualidade. How to win: melhor experiência." Isso passa no formulário e reprova na realidade. A ferramenta é tão boa quanto a honestidade de quem a usa — e ela não força honestidade, só a organiza.

Há também a crítica de que Playing to Win é, no fundo, a história de uma empresa gigante e dominante. A P&G podia escolher onde jogar porque tinha músculo para vencer em vários lugares. O operador de empresa média muitas vezes não escolhe livremente onde joga — herda o terreno, está preso a ativos físicos, a contratos, a uma geografia. A cascata vale, mas a liberdade de escolha que ela pressupõe é menor na vida real do que no caso P&G.

Por fim, Martin é mais forte no o quê da estratégia do que no como diagnosticar a situação. Ele assume que você já entende o seu mercado o bastante para escolher bem. É aqui que a obra dele pede o complemento de um Rumelt, cujo foco é exatamente o diagnóstico — a parte que Martin trata como pressuposto.

Como aplicar no seu dia a dia

Use Martin como um framework rodado, literalmente, negócio por negócio. Rodar a cascata em cada frente expõe na hora onde a estratégia é real e onde é fluff.

Num negócio maduro de produto comoditizado e margem fina, a tentação é definir o "where to play" como "vender para quem passa". Isso não é escolha, é descrição. Aplicar Martin a sério força você a estreitar: onde você realmente joga é na captura de recorrência local — o cliente que volta toda semana, não o de passagem. O "how to win" decorre disso: não é preço (guerra que se perde para a escala dos grandes), é fidelização e conveniência que tornam o cliente recorrente mais valioso. As capacidades que isso exige são dados de cliente, programa de fidelidade que funcione e operação de conveniência — não capacidade de comprar o insumo mais barato. E os management systems precisam medir recorrência e valor do cliente ao longo do tempo, não só volume vendido no mês. Quando você escreve assim, fica óbvio quais iniciativas estão coerentes e quais estão lá por inércia.

Numa frente nascente e de demanda incerta, a cascata obriga você a admitir que ainda não sabe o "where to play" com precisão — e isso é informação valiosa, não vergonha. A aspiração de vitória honesta não é "dominar o mercado"; é garantir as melhores posições antes que ele amadureça. O "where to play" vira uma escolha de foco: os poucos pontos ou segmentos com tração real, não cobertura ampla. O "how to win" é confiabilidade e posição privilegiada travada por contrato — vencer por estar no lugar certo com o serviço que sempre funciona, não por ter a tecnologia mais nova. As capacidades são originação e execução operacional consistente. O sistema de gestão crítico é o que mede maturação por posição, para você saber cedo qual aposta é vencedora e qual é dinheiro parado.

Num produto validado dentro da própria operação, a cascata é cirúrgica. A aspiração não pode ser "virar uma empresa de software de sucesso" — vago demais. É vencer com um segmento específico: operadores parecidos com você, que enfrentam o mesmo problema que o produto já resolve na sua própria casa. O "where to play" é esse nicho de clientes análogos, não "qualquer empresa que precise da solução". O "how to win" é a credibilidade de quem usa o próprio produto no dia a dia — vantagem que um concorrente puramente de software não consegue imitar. As capacidades são exatamente as que você tem de sobra (conhecimento operacional do problema) e exatamente as que faltam (motor comercial), o que torna o diagnóstico de investimento claro.

O segundo uso de Martin é no nível da empresa inteira, com integrative thinking. Quem opera várias frentes vive tensões aparentes de escolha binária: investir no negócio maduro ou na frente nascente? Caixa hoje ou posição estratégica amanhã? Martin proíbe você de tratar isso como ou-ou preguiçoso. A pergunta integrativa é: existe uma terceira configuração em que o caixa de uma frente financia a posição na outra, em que os dados de um negócio alimentam o outro, em que a operação que valida o produto é a mesma que gera caixa? Frequentemente existe — e encontrá-la é o trabalho. A cascata garante que cada negócio tenha uma estratégia própria coerente; o integrative thinking garante que o conjunto seja mais do que a soma das partes.

E o uso diário, mais simples: toda vez que alguém propõe uma direção, pergunte o que ela faz você dizer não. Se a proposta não fecha nenhuma porta, não é estratégia — é a empresa tentando agradar a todos e, com isso, garantindo que não vai vencer ninguém.

Para ir além

Comece por Playing to Win: How Strategy Really Works (2013), de A.G. Lafley e Roger L. Martin. É o ponto de entrada perfeito: a cascata de cinco escolhas explicada com casos reais da P&G. Leia caneta na mão e preencha a cascata para um dos seus negócios enquanto lê — o livro só ganha vida quando aplicado.

Depois vá para The Opposable Mind (2007), sobre integrative thinking. É o livro que ensina a gerar as escolhas criativas que a cascata depois organiza — a habilidade de não ceder ao falso dilema. Complemente com o blog do próprio Martin no Medium, onde ele publica ensaios curtos e afiados refinando os conceitos (incluindo a distinção crucial entre "how to win" e "capabilities").

Avançado: The Design of Business (2009), sobre como o pensamento de design move o conhecimento do mistério à heurística e à rotina — uma teoria de como organizações geram vantagem ao longo do tempo. E, para fechar o circuito intelectual, leia Martin em diálogo com Michael Porter, de quem ele herda a base ("competir é escolher executar atividades de forma diferente dos rivais").

Conexões no vault

  • Estrategia e Capital — a área que ancora este estudo.
  • Frameworks — a cascata de cinco escolhas (winning aspiration → where to play → how to win → capabilities → management systems) entra aqui como o gabarito de construção de estratégia; o integrative thinking, como ferramenta de decisão sob tensão.
  • richard-rumelt — par obrigatório. Rumelt fornece o diagnóstico e o detector de fluff que Martin pressupõe; Martin fornece o método positivo de escolha que Rumelt deixa em aberto. Juntos, cobrem a estratégia inteira: descobrir o desafio e escolher como vencê-lo.
  • charlie-munger — o integrative thinking de Martin (segurar dois modelos opostos) ecoa o latticework multidisciplinar de Munger; ambos recusam o pensamento de martelo único.

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