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Estratégia e Capital9 / 18
PensadoresEstratégia e CapitalParte 9 de 18

Howard Marks — pensar no segundo nível e saber onde você está

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"Risco significa que mais coisas podem acontecer do que vão acontecer." — Elroy Dimson, citado por Howard Marks em The Most Important Thing

O essencial em 30 segundos

Howard Marks construiu uma das maiores gestoras de dívida em dificuldade do mundo apostando numa ideia que parece óbvia e quase ninguém pratica: você não controla o resultado, controla o processo. O mercado é um sistema cheio de gente reagindo umas às outras, então prever o futuro é fútil — mas saber onde você está no ciclo, hoje, é possível e é tudo o que importa. A frase que resume a vida dele cabe num crachá: "você não pode prever, você pode se preparar".

Para quem opera capital de verdade, Marks oferece duas ferramentas que valem mais do que qualquer planilha de projeção. A primeira é o pensamento de segundo nível: não basta estar certo sobre os fatos, é preciso estar certo de um jeito diferente do consenso, porque o preço já embute o que todo mundo pensa. A segunda é a leitura de ciclo: a maior parte do risco entra na carteira não quando as coisas vão mal, mas quando vão tão bem que todo mundo esquece que podem ir mal. Marks ensina a sentir a temperatura do mercado e a agir contra o humor dominante.

Quem é

Howard Marks nasceu em Nova York em 1946. Formou-se em finanças na Wharton, na Universidade da Pensilvânia, e fez MBA na Booth School da Universidade de Chicago, concluído em 1969. Tornou-se CFA em 1975. A trajetória profissional é importante porque moldou sua filosofia: começou no Citicorp em 1969, onde acabou indo parar nos títulos de alto rendimento — os "junk bonds", então vistos com desprezo. Foi exatamente nessa fronteira malvista, onde o consenso era preguiçoso, que ele aprendeu que o dinheiro grande não está em comprar bons ativos, e sim em comprar ativos cujo preço subestima a realidade.

Em 1985 mudou para o TCW Group, onde liderou as estratégias de dívida de alto rendimento e títulos conversíveis e, em 1988, organizou com Bruce Karsh o primeiro fundo de dívida em dificuldade da casa. Em 1995, Marks, Karsh e outros três sócios fundaram a Oaktree Capital Management — depois que o TCW recusou deixá-los gerir os fundos existentes. A Oaktree virou a maior investidora em títulos em dificuldade do mundo. O momento de consagração veio em 2008: durante a crise financeira, a Oaktree levantou um fundo de dívida em dificuldade da ordem de US$ 10,9 bilhões — descrito como o maior da história até então — e o desdobrou comprando justamente quando todos vendiam.

Mas a influência de Marks vai além dos números. Desde os anos 90 ele escreve memos — cartas públicas, gratuitas — sobre mercados, risco e ciclos. Warren Buffett resumiu o status desses textos numa frase que virou propaganda involuntária: "quando vejo memos do Howard Marks na minha caixa de entrada, são a primeira coisa que abro e leio". Em 2011 Marks reuniu a filosofia dos memos no livro The Most Important Thing: Uncommon Sense for the Thoughtful Investor, seguido por The Most Important Thing Illuminated (2012) e Mastering the Market Cycle (2018). É um caso raro de praticante bilionário que também é o melhor professor da própria disciplina.

A grande contribuição

A grande contribuição de Marks é ter tornado explícito e ensinável o que separa o investidor superior do mediano — e ter mostrado que isso quase nunca é informação, e quase sempre é qualidade de pensamento e temperamento.

O coração da tese é o pensamento de segundo nível. O pensador de primeiro nível olha para um bom negócio e conclui: "é um bom negócio, vou comprar". O pensador de segundo nível pergunta: e se é um bom negócio que todo mundo já sabe que é bom, e por isso já está caro demais? Marks descreve o segundo nível como um interrogatório completo: qual é a gama de resultados futuros prováveis? Qual eu acho que vai acontecer? Qual a probabilidade de eu estar certo? O que o consenso pensa? Em que minha visão difere do consenso? O preço atual reflete o consenso, e esse consenso está otimista ou pessimista demais? O que acontece com o preço se o consenso estiver certo, e o que acontece se eu estiver certo? É exaustivo de propósito. Para superar a média, é preciso pensar diferente da média e melhor do que a média — as duas coisas, ao mesmo tempo.

A segunda contribuição é a reabilitação do risco como conceito central. Marks adota a definição de Elroy Dimson: "risco significa que mais coisas podem acontecer do que vão acontecer". Risco não é volatilidade num gráfico; é a permanente possibilidade de perda, embutida no fato de que o futuro é uma distribuição de cenários, não um número. O investidor superior não é quem evita risco nem quem o abraça, mas quem o precifica corretamente — quem corre o risco que está sendo pago generosamente para correr e recusa o que está sendo mal pago.

As ideias-chave

1. Pensamento de segundo nível

A ideia que define Marks. "O pensamento de segundo nível é profundo, complexo e tortuoso", enquanto o de primeiro nível "procura fórmulas simples e respostas fáceis". O ponto prático: como o preço de qualquer ativo já incorpora o que o consenso pensa, estar certo sobre os fatos não basta — você só ganha dinheiro estando certo de um jeito que o consenso ainda não percebeu. Num portfólio, isso significa desconfiar de qualquer decisão que pareça "obviamente boa", porque o óbvio já está no preço.

2. Você não pode prever, você pode se preparar

No memo de novembro de 2001, "You Can't Predict. You Can Prepare.", Marks formulou a ideia que percorre toda a atividade da Oaktree: "podemos nunca saber para onde estamos indo, mas devíamos saber onde estamos". A previsão macro é, na prática, inútil porque ninguém acerta com consistência. Mas a posição atual no ciclo é legível. Em vez de apostar numa previsão, você se prepara para uma gama de cenários, dimensionando a exposição conforme onde o ciclo está agora.

3. Ciclos e a temperatura do mercado

Marks ensina a "tomar a temperatura do mercado". Quando todo mundo está eufórico, comprando, certo de que nada pode dar errado, o risco está no máximo justamente porque os preços não embutem mais nenhuma proteção. Quando todo mundo está apavorado, vendendo, certo de que tudo vai piorar, é aí que aparecem as melhores compras. O ciclo não é uma curva de calendário; é um pêndulo de psicologia entre ganância e medo. O trabalho do operador é se posicionar contra o extremo, não junto com ele.

4. Controlar o processo, não o resultado

Como o futuro é uma distribuição de probabilidades, um único resultado bom pode vir de uma decisão ruim com sorte, e um resultado ruim pode vir de uma decisão excelente com azar. Por isso Marks insiste em julgar a qualidade da decisão pelo processo, não pelo placar de uma rodada. Você não controla o que o mercado faz; controla como você decide, como dimensiona o risco e como se prepara. Avaliar a si mesmo pelo resultado de curto prazo é o caminho mais rápido para aprender as lições erradas.

5. Risco é a possibilidade permanente de perda

"Risco significa que mais coisas podem acontecer do que vão acontecer." A definição de Dimson que Marks adotou desmonta a ideia de risco como volatilidade. O risco real não aparece nos números do passado — ele mora nos cenários que não se realizaram desta vez, mas podiam ter se realizado. O perigo maior, diz Marks, é que o risco parece menor justamente quando está maior: depois de um longo período de bonança, todo mundo conclui que o ativo é seguro, e é nesse exato momento que o preço inflado o torna perigoso.

Em suas palavras

"Risco significa que mais coisas podem acontecer do que vão acontecer." (Marks citando Elroy Dimson, em The Most Important Thing*)*

"Você não pode prever. Você pode se preparar." (título do memo de novembro de 2001)

"Podemos nunca saber para onde estamos indo, mas devíamos saber onde estamos." (memo "You Can't Predict. You Can Prepare.", 2001)

"O pensamento de segundo nível é profundo, complexo e tortuoso… os pensadores de primeiro nível procuram fórmulas simples e respostas fáceis." (The Most Important Thing)

"Só porque algo é imprevisível não significa que não possa ser tratado. A maneira de tratá-lo é ver o futuro como uma distribuição de probabilidades de diferentes resultados." (paráfrase fiel da tese central de Marks sobre o futuro, em seus memos)

Limites e críticas

A filosofia de Marks é mais fácil de admirar do que de executar, e ele mesmo seria o primeiro a admitir. Comprar quando todos vendem exige uma estrutura de capital que aguente o tranco: a Oaktree consegue porque levanta fundos com compromissos de longo prazo e mandatos específicos para dívida em dificuldade. Um operador com capital próprio, dívida bancária de curto prazo ou sócios nervosos não tem o mesmo luxo de ser contrário no fundo do poço. A coragem contracíclica depende de ter munição e tempo — e a maioria não tem.

Há também a crítica de que parte da sabedoria de Marks só é nítida em retrospecto. "Tome a temperatura do mercado" é ótimo conselho, mas medir a temperatura em tempo real, sem a clareza do gráfico já desenhado, é genuinamente difícil. Mercados caros podem ficar mais caros por anos antes de corrigir; quem se posiciona como contrário cedo demais parece um tolo por muito tempo antes de parecer um gênio — e pode quebrar antes do desfecho. O próprio Marks reconhece que saber onde você está no ciclo não diz quando ele vira.

Por fim, a ênfase em processo sobre resultado, embora correta, pode virar desculpa. "A decisão foi boa, só deu azar" é uma frase verdadeira às vezes e uma fuga conveniente em outras. Sem honestidade brutal sobre quando o processo realmente foi falho, a doutrina de Marks pode anestesiar em vez de corrigir.

Como aplicar no seu dia a dia

Marks é o complemento intelectual de quem opera ativos com horizonte longo. As ferramentas dele se traduzem direto para o seu dia.

Ler o ciclo de capital, não a manchete. Todo setor vive de humores: ora uma frente é o futuro inevitável e o capital jorra, ora esfria e some. Marks ensina a não confundir o humor com a realidade. Quando o consenso está eufórico e todo mundo corre para o mesmo ponto, os retornos esperados despencam justamente porque o capital está empurrando preços e payback para cima. Quando o consenso esfria e o dinheiro foge, é aí que aparecem as melhores oportunidades e aquisições. Tome a temperatura do setor antes de alocar — essa é a disciplina central.

Pensar no segundo nível sobre cada negócio. Não basta saber que é um bom ativo — todo mundo sabe, e isso já está no preço de aquisição. A pergunta de segundo nível é onde a sua visão difere do consenso. Você vê uma melhoria operacional que o vendedor não enxerga? Uma localização que vai se valorizar por um motivo que o mercado ainda não precificou? Se a resposta for "é um bom ativo e ponto", provavelmente vai pagar caro.

Controlar o processo de alocação, não se julgar pelo placar do trimestre. Um trimestre ruim pode ter vindo de uma decisão certa com azar de mercado; um trimestre bom pode ter vindo de sorte sobre uma decisão frágil. Marks força você a avaliar suas decisões de capital pela qualidade do raciocínio no momento em que foram tomadas, com a informação disponível, e não pelo resultado de curto prazo. Isso muda quais lições você de fato aprende.

Preparar para uma gama de cenários, não apostar numa previsão. Em vez de construir o plano de expansão sobre uma única projeção, dimensione a exposição para sobreviver a vários cenários. Saber onde você está no ciclo — caixa forte, dívida sob controle — dá a liberdade que Marks descreve: a de poder comprar quando o medo geral derruba os preços, exatamente quando os concorrentes alavancados demais são forçados a vender.

Tratar risco como possibilidade permanente de perda. Depois de anos bons num negócio, a tentação é concluir que ele é seguro e alavancar em cima dele. Marks é o alarme: o risco parece menor justamente quando está maior. A régua é dimensionar dívida e exposição para o cenário ruim que não aconteceu desta vez, não para o cenário bom que virou hábito.

Para ir além

Comece por: o memo "You Can't Predict. You Can Prepare." (novembro de 2001), disponível gratuitamente no site da Oaktree. É curto, fundador, e contém a frase que organiza tudo.

Depois: o livro The Most Important Thing (2011) — de preferência a edição Illuminated, com comentários de investidores convidados nas margens. É a destilação da filosofia inteira.

Avançado: Mastering the Market Cycle (2018), para a mecânica detalhada dos ciclos, e o arquivo completo de memos da Oaktree, lendo na ordem cronológica para ver como ele leu cada crise em tempo real — incluindo 2008.

Conexões no vault

  • Estrategia e Capital — Marks é o pilar da disciplina de risco e processo dentro do estudo de alocação de capital.
  • Frameworks — o pensamento de segundo nível e a leitura de temperatura do mercado como ferramentas reutilizáveis de decisão.
  • Macro e Geopolitica — leitura essencial sobre Marks e ciclos: por que prever o macro é fútil, mas posicionar-se no ciclo é possível.
  • Tom Murphy — a outra face da mesma virtude: Murphy aplicou na operação a paciência e a margem de segurança que Marks aplica no investimento; ambos preferem não fazer nada a pagar caro.

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