Marty Makary — o cirurgião que aprendeu a duvidar da própria tribo
"Uma das qualidades mais importantes de um médico é a humildade — conhecer seus limites e ter a consciência de que você pode estar errado." — Marty Makary, Blind Spots (2024)
O essencial em 30 segundos
Marty Makary é um cirurgião de Johns Hopkins que passou a carreira fazendo uma pergunta que constrange a própria profissão: e quando a medicina está errada — e ninguém quer admitir? Ele ajudou a criar a checklist cirúrgica que reduz mortes em salas de operação, escreveu três best-sellers expondo opacidade de preços, conflitos de interesse e dogmas não baseados em evidência, e em abril de 2025 tornou-se o 27º Comissário do FDA, a agência que regula medicamentos e alimentos nos EUA — antes de renunciar em maio de 2026, após pressão para aprovar cigarros eletrônicos com sabores que ele considerava perigosos para jovens. Para um operador que precisa tomar decisões de saúde dentro de um sistema cheio de incentivos tortos, Makary oferece um par de ferramentas: como reconhecer quando o "consenso médico" é groupthink disfarçado, e como exigir evidência, preço e transparência antes de aceitar uma intervenção. E sua própria trajetória — do crítico do sistema ao topo do sistema, e de volta — é uma aula sobre o limite entre questionar dogma e cair em contrarianismo.
Quem é
Martin "Marty" Makary nasceu em 1971 em Liverpool, na Inglaterra, e cresceu nos Estados Unidos. Formou-se em bacharelado pela Bucknell University, fez medicina na Thomas Jefferson University e um mestrado em saúde pública (MPH) em Harvard. Construiu mais de duas décadas de carreira em Johns Hopkins, onde foi cirurgião oncológico e especialista em cirurgia laparoscópica gastrointestinal, ocupou a cátedra Mark Ravitch em Cirurgia Gastrointestinal, foi chefe de Cirurgia de Transplante de Ilhotas e diretor de Qualidade e Segurança em Cirurgia. Publicou mais de 300 artigos revisados por pares — não é um polemista de palanque que nunca pisou num laboratório; é um pesquisador-cirurgião que polemiza a partir dos dados.
Seu primeiro impacto de grande escala foi na segurança do paciente. Makary foi autor de trabalhos sobre a "checklist cirúrgica" e colaborou com a Organização Mundial da Saúde no desenvolvimento da checklist cirúrgica oficial da OMS — uma lista de verificação simples (confirmar o paciente, o procedimento, o lado certo do corpo, contar instrumentos) que demonstrou reduzir complicações e mortes. É um detalhe que define o personagem: sua reputação nasce de provar que erros sistêmicos previsíveis matam, e que soluções humildes e baratas salvam.
Depois vieram os livros, todos best-sellers do New York Times. Unaccountable (2012) atacou a falta de prestação de contas dos hospitais. The Price We Pay: What Broke American Health Care — and How to Fix It (2019) virou um manifesto sobre a opacidade dos preços médicos e a indústria por trás das contas hospitalares. Blind Spots: When Medicine Gets It Wrong, and What It Means for Our Health (2024) é o mais filosófico: um catálogo de momentos em que o consenso médico estava errado — da epidemia de alergia a amendoim ao uso excessivo de antibióticos, das recomendações sobre reposição hormonal ao manejo da dor — e uma anatomia dos vieses (dissonância cognitiva, pensamento de manada, incentivos perversos) que impedem a profissão de admitir erros.
Em março de 2025 o Senado dos EUA o confirmou, por 56 a 44, como Comissário do FDA; tomou posse em 1º de abril de 2025. Em 12 de maio de 2026 renunciou, após um período turbulento. O estopim, segundo o noticiário, foi a aprovação de cigarros eletrônicos com sabores de fruta: Makary resistia a liberá-los por temer o apelo entre jovens e teria sido pressionado pela administração a aprová-los — saiu em vez de assinar. Independentemente da leitura política, é coerente com o personagem: o mesmo homem que passou a vida cobrando evidência e proteção do público não quis ser o nome embaixo de uma decisão que considerava contrária a ambos.
A grande contribuição
A grande contribuição de Makary é metodológica e cultural antes de ser clínica: ele tornou respeitável, dentro da medicina, dizer "estávamos errados". A medicina se apresenta ao público como a aplicação fria da ciência. Makary documenta, caso a caso, que ela é também uma instituição humana — com tribos, hierarquias, reputações a defender e dinheiro em jogo — e que essas forças sociais frequentemente atrasam por anos, às vezes décadas, a correção de práticas que a evidência já desmentiu.
O exemplo que ele mais usa é a alergia a amendoim. Por anos, a orientação oficial foi evitar amendoim em bebês de risco. A lógica parecia óbvia; a evidência, na verdade, apontava para o contrário. Quando estudos rigorosos mostraram que a exposição precoce reduz a alergia, a recomendação se inverteu — mas o atraso custou uma geração de crianças sensibilizadas desnecessariamente. A lição de Makary não é "os médicos são burros". É mais incômoda: pessoas inteligentes, agindo de boa-fé dentro de um consenso, produzem erros coletivos que ninguém individualmente teria coragem de cometer. É groupthink com jaleco.
Para o operador, essa é a transferência mais valiosa. Toda organização tem seus consensos confortáveis que ninguém audita. Makary dá um vocabulário e um método para o ceticismo disciplinado: não o ceticismo preguiçoso do "não confio em nada", mas o rigoroso de "qual é a evidência, quem se beneficia desta recomendação, e o que aconteceria se eu pedisse os dados brutos?". É exatamente o tipo de pergunta que um bom gestor faz numa reunião — e que quase ninguém faz no consultório.
As ideias-chave
1. O consenso médico não é o mesmo que a evidência
Makary distingue duas coisas que normalmente se confundem: o que a literatura comprova e o que "todo mundo faz". Boa parte da prática médica é tradição herdada, nunca testada com rigor. Em Blind Spots ele percorre exemplos — apendicite que talvez nem sempre precise de cirurgia, uso indiscriminado de antibióticos, reposição hormonal demonizada com base em interpretação equivocada de um estudo. O ponto prático: quando um profissional diz "é o padrão de cuidado", isso é uma afirmação sobre o costume, não necessariamente sobre a evidência. São perguntas legítimas: este padrão foi testado em ensaio randomizado? Ou é o que se faz porque sempre se fez?
2. Transparência de preço é uma questão de poder, não só de dinheiro
Em The Price We Pay, Makary mostra que o paciente americano frequentemente não consegue saber, antes de aceitar um procedimento, quanto vai custar — e que essa opacidade não é acidente, é modelo de negócio. Hospitais cobram valores que variam ordens de grandeza pelo mesmo serviço; contas surpresa quebram famílias. A defesa da transparência de preços é, no fundo, uma redistribuição de poder informacional do sistema para o paciente. Para quem decide, a lição vale para além da saúde americana: exigir o preço antes, por escrito, é uma postura de comprador adulto que a medicina ainda tenta evitar.
3. Conflito de interesse molda a recomendação
Makary insiste que se siga o dinheiro. Diretrizes escritas por painéis financiados pela indústria, médicos remunerados por volume de procedimentos, pesquisas patrocinadas por quem vende o produto testado — nada disso invalida automaticamente a conclusão, mas tudo isso muda a probabilidade de que a recomendação seja enviesada. A ferramenta prática é simples: ao receber uma indicação, pergunte quem ganha se você disser sim. Não para virar paranoico, mas para calibrar a confiança.
4. Humildade epistêmica como virtude clínica máxima
A frase que abre este texto é o coração de Blind Spots: a qualidade mais importante de um médico é a humildade — saber seus limites e admitir que pode estar errado. É uma inversão do estereótipo do médico onisciente. Makary argumenta que o sistema deveria premiar a admissão de erro (e a desculpa pública por danos coletivos) como condição para reconquistar confiança. Exemplo aplicado: prefira o médico que diz "não tenho certeza, vamos monitorar" ao que projeta certeza absoluta sobre tudo. A certeza performática costuma ser sinal de menos rigor, não de mais.
5. O contrarianismo tem um lado escuro — e ele mesmo é o caso de teste
Aqui está a tensão que torna Makary fascinante. A mesma disposição de "duvidar do consenso" que o tornou um reformador valioso pode, levada longe demais, virar contrarianismo — duvidar por reflexo, inclusive quando o consenso está certo. Durante a pandemia, Makary apoiou máscaras e a vacinação de adultos, mas se opôs a mandatos amplos e a restrições escolares — e fez uma previsão pública, no início de 2021, de que a covid estaria "majoritariamente sumida até abril" por imunidade de rebanho, o que não se confirmou. O exemplo é instrutivo justamente porque vem do próprio crítico do erro: duvidar do consenso é uma faca de dois gumes, e ninguém — nem Makary — está imune a errar por excesso de confiança contrária.
Em suas palavras
- "Uma das qualidades mais importantes de um médico é a humildade — conhecer seus limites e ter a consciência de que você pode estar errado." (Blind Spots, 2024)
- O subtítulo-tese de The Price We Pay: "O que quebrou a saúde americana — e como consertá-la." (2019)
- O subtítulo-tese de Blind Spots: "Quando a medicina erra, e o que isso significa para a nossa saúde." (2024)
- Sobre o ritmo de regulação e o padrão de evidência, ao discutir corantes alimentares (julho de 2025): "Temos muitos dados, e talvez não seja necessariamente o tradicional ensaio clínico randomizado com 50 anos de acompanhamento." — exemplo da sua própria tensão entre exigir evidência e agir sob incerteza.
(As citações acima estão ancoradas em fontes verificadas — livros publicados e cobertura jornalística datada. Onde a tradução é minha, o sentido foi preservado; o leitor que quiser a formulação exata em inglês deve ir à fonte primária.)
Limites e críticas
Makary precisa ser lido com a mesma desconfiança que ele ensina — e ele seria o primeiro a concordar. A crítica mais séria é que o método "questione o consenso" não vem com um freio embutido. Saber quando o consenso está errado é difícil; o consenso, afinal, costuma estar certo (é por isso que é consenso). A história da covid mostra Makary tanto acertando (cético quanto a algumas restrições que não se sustentaram) quanto errando publicamente (a previsão de imunidade de rebanho para abril de 2021). A lição não é descartá-lo, é notar que a ferramenta dele corta nas duas direções: pode dissolver dogmas falsos e pode produzir falsos ceticismos. O usuário precisa de um critério para distinguir os dois — e Makary fornece menos desse critério do que seria ideal.
Há também a tensão de seu próprio cargo. Como crítico externo, sua função era estourar bolhas de consenso. Como Comissário do FDA, ele era o consenso institucional — responsável por padrões de evidência, por dizer sim e não a produtos. Seu período foi turbulento e terminou em renúncia. Críticos de diferentes lados apontaram que a postura contrarianista que rende bons livros nem sempre traduz bem para a cadeira regulatória, onde decisões precisam de defensabilidade procedimental, não só de intuição cética. Por outro lado, sua saída — recusar-se a assinar a liberação de vapes com sabor — pode ser lida como a coerência levada às últimas consequências: ele preferiu sair a violar o princípio que sempre pregou. Qual leitura é a verdadeira provavelmente depende de dados que ainda vão emergir; o operador prudente segura o juízo.
Por fim, uma crítica de proporção: ao colecionar os casos em que a medicina errou, Blind Spots pode dar ao leitor desavisado a impressão de que a medicina erra sempre — quando os erros documentados são exceções notáveis num oceano de práticas que funcionam. O risco é o leitor sair não com ceticismo calibrado, mas com niilismo médico ("não dá para confiar em nada"), que é tão perigoso quanto a fé cega. Makary quer a primeira coisa; o livro, mal lido, pode produzir a segunda.
Como aplicar no seu dia a dia
Quando você precisa decidir sobre a própria saúde dentro de um sistema com incentivos que não são os seus, use Makary como um conjunto de perguntas, não de conclusões.
A pergunta da evidência. Diante de qualquer indicação — um exame de rotina caro, um procedimento, um remédio contínuo — pergunte: isto foi testado em ensaio randomizado, ou é "padrão de cuidado" por costume? E qual é o ganho absoluto, não o relativo? "Reduz o risco em 50%" pode significar de 2 em 1000 para 1 em 1000. Makary ensina a exigir o número absoluto.
A pergunta do dinheiro. Antes de aceitar, pergunte quem ganha se você disser sim. Não para recusar por princípio, mas para calibrar quanto desconto aplicar ao entusiasmo de quem indica. E, na linha de The Price We Pay, peça o preço antes — por escrito — como faria em qualquer outra compra grande.
A pergunta da humildade — sua e do médico. Prefira, ativamente, o profissional que diz "não sei, vamos monitorar" ao que projeta certeza sobre tudo. E aplique a mesma vara a si mesmo: quando se pegar certo demais de uma posição de saúde contrária ao consenso, use o exemplo da previsão furada de Makary como lembrete de que duvidar do consenso também é falível.
O antídoto contra o niilismo. Trate a lição central como "ceticismo calibrado", não "desconfio de tudo". A maioria das recomendações médicas básicas funciona. O trabalho é localizar o subconjunto de práticas frágeis — e para isso o método de Makary serve, desde que você não o transforme numa desculpa para ignorar evidência sólida quando ela existe. É exatamente aqui que ele se encaixa com o outro pensador da área: onde Ornish dá o que a evidência prova que fazer, Makary dá como duvidar do que o sistema afirma. Um sem o outro é incompleto.
Para ir além
Comece por: The Price We Pay (2019) — é o mais acionável para quem decide; depois de lê-lo, você nunca mais aceita um procedimento sem perguntar o preço e o porquê.
Depois: Blind Spots (2024) — a obra mais profunda sobre como a medicina erra coletivamente; leia já atento ao risco de niilismo, extraindo o método sem absorver o pessimismo.
Avançado: acompanhe a cobertura jornalística datada do seu período no FDA (abril de 2025 a maio de 2026) e da renúncia, e contraste com suas posições anteriores como crítico externo. Ver um pensador testado pela responsabilidade real — e por onde ele cedeu, resistiu ou saiu — vale mais do que qualquer livro sobre teoria de decisão.
Conexões no vault
- Saude e Longevidade — índice da área
- dean-ornish — o par natural: Ornish responde "o que eu faço pela minha saúde" com evidência forte de estilo de vida; Makary responde "como eu questiono o sistema que cuida da minha saúde". Juntos formam a dupla alavanca do operador: agir sobre o que se controla e duvidar com método do resto.
- Tema transversal: ceticismo informado e decisão de saúde sob incentivos tortos — ler os dois é montar um filtro pessoal contra tanto o dogma quanto o niilismo.