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Liderança50 / 52
  1. Rich Karlgaard & Michael Malone — a ciência dos pequenos times
  2. Esther Perel — levamos para o trabalho a mesma pessoa que somos no amor
  3. Adam Grant — a coragem de repensar como competência de liderança
  4. Russ Laraway — o fuzileiro que provou, com dados, que gerir bem é mais simples do que parece
  5. Ed Catmull — O engenheiro que aprendeu a proteger ideias frágeis
  6. Daniel Pink — o autor que mostrou que pagamos pelas coisas erradas
  7. Elon Musk — engenharia de primeiros princípios e o custo humano da intensidade
  8. David Vélez — Obsessão pelo cliente como vantagem composta
  9. Frances Frei & Anne Morriss — confiança como ativo de liderança, e por que liderar não é sobre você
  10. Geoffrey Moore — o abismo entre quem ama o novo e quem só quer que funcione
  11. Kim Scott — Importar-se de verdade e desafiar diretamente
  12. Henry Mintzberg — o homem que foi olhar o que o gestor realmente faz
  13. Indra Nooyi — Desempenho com propósito, e o custo real de liderar uma gigante
  14. Jensen Huang — a organização plana e a missão como chefe
  15. Amy Edmondson — A organização sem medo
  16. Andy Grove — o engenheiro que transformou gestão em uma disciplina de saída mensurável
  17. Brené Brown — a coragem como competência de liderança
  18. Daniel Goleman — o psicólogo que provou que liderar é, antes de tudo, gerir emoções
  19. Daniel Ek — errar mais rápido que todo mundo
  20. Charles Handy — o filósofo que mandou saltar antes do auge
  21. Brian Chesky — o designer que devolveu o detalhe à cadeira do fundador
  22. Camille Fournier — o mapa de carreira que faltava para quem lidera engenharia
  23. Jeff Bezos — A disciplina de permanecer no Dia 1
  24. Frances Hesselbein — liderança é uma questão de como ser, não de como fazer
  25. Jim Collins — a disciplina que separa o bom do excelente
  26. Mary Parker Follett — a profeta esquecida que entendeu poder antes de todo mundo
  27. Konosuke Matsushita — o capitalismo como missão social
  28. Luiza Helena Trajano — gente que dá resultado
  29. Mary Barra — A engenheira que apostou a montadora inteira no futuro elétrico
  30. Liz Wiseman — o líder que multiplica em vez de sufocar
  31. Marcus Buckingham — pare de consertar fraquezas, comece a construir sobre forças
  32. Marshall Goldsmith — o coach que ensina líderes de sucesso a parar de fazer o que os trouxe até aqui
  33. Tim Cook — A excelência operacional como filosofia de liderança
  34. Satya Nadella — A empatia como estratégia e a cultura como vantagem competitiva
  35. Tobi Lütke — o programador que transformou empreender em jogo infinito
  36. Patrick Lencioni — A confiança como infraestrutura do time
  37. Sergio Furio — o espanhol que apostou que o brasileiro pagava juros demais
  38. Sakichi Toyoda e Taiichi Ohno — a fábrica que pensa
  39. Patty McCord — Tratar gente adulta como gente adulta
  40. Sheryl Sandberg — o assento à mesa e o que vem depois da queda
  41. Vicente Falconi — o homem que deu método à gestão brasileira
  42. Peter Drucker — o homem que inventou a gestão como objeto de estudo sério
  43. Steve Jobs — Foco é dizer não, mil vezes
  44. Vicky Bloch — A liderança como ofício de fazer o outro crescer
  45. Reed Hastings — a aposta de que liberdade rende mais que controle
  46. Stewart Butterfield — não vendemos selas aqui
  47. W. Edwards Deming — o homem que ensinou que o problema quase nunca é a pessoa
  48. Will Larson — o engenheiro que aprendeu a gerir uma organização como se gere um sistema
  49. Ben Horowitz — o homem que escreveu o manual das decisões impossíveis
  50. Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira — o trio que transformou cultura em ativo
  51. Abílio Diniz — foco, energia e a arte de recomeçar
  52. Alfred P. Sloan — o homem que inventou a empresa moderna (e quase escondeu o livro que explica como)
PensadoresLiderançaParte 50 de 52

Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira — o trio que transformou cultura em ativo

11 min de leitura
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Pensadores

"Sonhar grande e sonhar pequeno dá o mesmo trabalho." — Jorge Paulo Lemann (citado em Sonho Grande, de Cristiane Correa)

O essencial em 30 segundos

Três brasileiros — um ex-tenista carioca formado em Harvard, um operador obstinado e um corretor inquieto — montaram em 1971 um banco de investimentos, o Garantia, e a partir dele construíram o maior império da história do capitalismo brasileiro. O caminho passou por uma cervejaria comprada em 1989 (a Brahma), pela criação da AmBev em 1999, pela fusão com a belga Interbrew em 2004 (InBev), pela aquisição da Anheuser-Busch em 2008 e, via 3G Capital, pelo Burger King, Tim Hortons, Heinz e Kraft.

O que eles realmente exportaram não foi cerveja nem hambúrguer: foi um sistema de gestão. Meritocracia radical, metas agressivas com bônus atrelado a resultado, orçamento base zero (ZBB), obsessão com custos e uma frase-bandeira — "sonhar grande dá o mesmo trabalho que sonhar pequeno". O modelo gerou retornos extraordinários por décadas e, no caso Kraft Heinz, expôs seus próprios limites de forma pública e dolorosa. Vale estudar os dois lados.

Quem são

Jorge Paulo Lemann nasceu no Rio em 26 de agosto de 1939, filho de imigrantes suíços. Foi cinco vezes campeão brasileiro de tênis e jogou Wimbledon e Copa Davis antes de se formar em economia em Harvard, em 1960. O tênis não é nota de rodapé: dele Lemann tirou a noção de treino, disciplina, foco e a leitura fria de que jogo se ganha cometendo menos erros que o adversário. Em 1971 fundou o Banco Garantia, que se tornaria o "Goldman Sachs brasileiro".

Carlos Alberto "Beto" Sicupira (n. 1948) é o operador. Foi ele quem assumiu o varejo (as Lojas Americanas, a partir de 1982) e quem deu corpo ao manual de execução: detalhe, presença no chão, intolerância com desperdício, gestão de pessoas como gestão de talento. Sócio do Garantia até a venda ao Credit Suisse First Boston, em 1998.

Marcel Herrmann Telles (n. 26 de fevereiro de 1950) é o homem da Brahma. Quando o trio comprou a cervejaria em 1989, foi Telles quem desceu para dentro da operação e impôs o sistema: cortou hierarquia, instalou metas, criou a cultura de que todo funcionário de alto desempenho podia virar sócio. Telles costuma dizer que "um bom sistema de gestão sempre vence um bom mercado" — e a Brahma, depois AmBev, depois AB InBev, virou o caso brasileiro mais citado disso.

Em 2004 o trio formalizou a 3G Capital, o veículo de investimento que levaria o método para fora do Brasil. O nome 3G já diz tudo sobre a filosofia: três sócios, um sistema, e a disposição de aplicá-lo em qualquer setor.

A grande contribuição

A maior contribuição do trio não é financeira — é cultural e replicável. Eles provaram, em múltiplos setores e continentes, que uma cultura de gestão bem desenhada é um ativo transferível. Você compra uma empresa medíocre, instala o sistema, e o sistema produz o resultado. Cerveja, hambúrguer, ketchup, varejo: o produto muda, o método não.

Esse método repousa sobre quatro pilares que se reforçam:

  1. Gente acima de tudo. "Empresas são feitas de gente." A obsessão por recrutar, formar e reter os melhores ("PSDs" — pessoas pobres, espertas e com desejo de ficar rica, no jargão interno) é a base de tudo.
  2. Meritocracia com consequência. Resultado é medido, ranqueado e remunerado. O topo vira sócio; a base persistente sai.
  3. Custo como religião. Orçamento base zero, frugalidade ostensiva, e a convicção de que custo cortado é margem permanente.
  4. Sonhar grande. Metas que parecem absurdas, porque metas tímidas mobilizam tão pouco quanto custam.

O conjunto criou um flywheel: bons resultados financiam bônus generosos, bônus atraem e retêm gente excepcional, gente excepcional entrega bons resultados. Esse é o motor que rodou de 1989 até bem entrada a década de 2010.

As ideias-chave

1. "Sonhar grande dá o mesmo trabalho que sonhar pequeno"

É a frase fundadora. A lógica é desconcertante de tão simples: a energia, o estresse e as horas para tocar um projeto ambicioso e um projeto modesto são quase idênticas — então por que escolher o modesto? Quando o Garantia, um banco brasileiro, decidiu que poderia ser dono da maior cervejaria do mundo, isso não era delírio: era a aplicação literal do princípio. O perigo do sonho pequeno é que ele consome a mesma vida e entrega um destino menor.

No contexto de quem opera negócios, isso vira um filtro de alocação de energia. Se um time de operação vai gastar seis meses montando um projeto, que esse projeto resolva algo grande — não um ajuste cosmético.

2. Donos, não funcionários

A distinção entre "dono" e "empregado" é o coração antropológico do modelo. Dono se importa com o caixa no fim do mês, apaga a luz da sala vazia, negocia cada centavo com fornecedor e enxerga a empresa como extensão do próprio patrimônio. Funcionário cumpre função. O sistema 3G inteiro é desenhado para fabricar donos: por isso o programa de participação nos resultados (PPR/bônus) é tão agressivo, por isso os melhores viram sócios de verdade. Telles institucionalizou na Brahma a ideia de que o bônus de um ano excepcional podia valer vários salários — e que isso não era custo, era investimento em comportamento.

3. Orçamento base zero (ZBB)

No orçamento tradicional, você parte do ano anterior e ajusta na margem ("ano passado gastamos X, esse ano X+5%"). No ZBB, todo gasto começa do zero e precisa ser justificado de novo, todo ano, a partir do primeiro real. Nada é herdado. Nada é "já estava no orçamento". Cada despesa volta para o tribunal anualmente. É trabalhoso e impopular, e é exatamente por isso que funciona: ele mata a gordura que se acumula por inércia. Foi o ZBB que entregou as expansões espetaculares de margem da AmBev e, depois, da Heinz.

4. Metas que pressionam, com consequência clara

O sistema não tolera meta decorativa. Metas são poucas, numéricas, públicas e acompanhadas de perto. Quem bate é premiado de forma desproporcional; quem não bate, repetidamente, não fica. Essa ligação dura entre meta, medição e remuneração é o que separa "ter metas" de "ser governado por metas". E é aqui que o trio se cruza com Vicente Falconi — o método de gerenciamento por diretrizes e PDCA do Falconi forneceu, em boa parte, a engenharia que tornou essa meritocracia mensurável e auditável.

5. Simplicidade e frugalidade como cultura, não como pose

Sala aberta, sem andar de diretoria, sem mordomia, sem jato corporativo desnecessário. A frugalidade não é mesquinhez — é sinalização cultural. Quando o sócio mais rico viaja em classe econômica, ele está dizendo a toda a organização qual é o padrão. Cultura se ensina por exemplo, e a estética da austeridade é parte do método.

Em suas palavras

"Sonhar grande e sonhar pequeno dá o mesmo trabalho." — Jorge Paulo Lemann (em Sonho Grande, Cristiane Correa)

"Um bom sistema de gestão sempre vence um bom mercado." — Marcel Telles (paráfrase frequentemente atribuída a ele em entrevistas e em Sonho Grande)

"Empresas são feitas de gente." — princípio recorrente do trio, registrado em Sonho Grande

"Custos são como unhas: têm que ser cortados constantemente." — máxima atribuída ao trio dentro da cultura da Brahma/AmBev (registrada em Sonho Grande)

"A gente sempre acha que está fazendo de menos." — espírito da insatisfação produtiva cultivada na cultura interna (relatado em Sonho Grande)

(Observação honesta: muitas dessas frases circulam como cultura oral da organização e foram cristalizadas pelo livro de Cristiane Correa, fonte central e bem documentada. A primeira citação é a mais firmemente verificada e atribuída diretamente a Lemann.)

Limites e críticas

Estudar o trio sem estudar Kraft Heinz é estudar metade. Em 2015, a 3G uniu Kraft e Heinz — esta última comprada em 2013 em parceria com a Berkshire Hathaway, de Warren Buffett. Aplicaram o manual de sempre: ZBB, cortes profundos, eliminação de milhares de empregos, fechamento de fábricas, margens em expansão imediata. Por alguns anos, pareceu mais uma vitória.

Então o motor engasgou. Em fevereiro de 2019, a Kraft Heinz anunciou uma baixa contábil de cerca de US$ 15 bilhões no valor de marcas como Kraft e Oscar Mayer, cortou o dividendo e revelou uma investigação da SEC sobre práticas contábeis. O próprio Buffett admitiu publicamente ter pago caro demais pela Kraft. O caso virou o estudo definitivo sobre os limites do corte.

A crítica de fundo é precisa e merece ser levada a sério por qualquer operador que admire o método:

  • Custo cortado não é o mesmo que valor criado. O ZBB é excelente para eliminar desperdício, mas se você também rapa o orçamento de marketing, inovação e pesquisa de marca, transforma "eficiência" em descapitalização disfarçada. As marcas da Kraft Heinz pararam de crescer organicamente porque ninguém estava mais investindo nelas.
  • Há um piso. "Não dá para cortar para sempre — existe um limite." Em algum ponto, a próxima rodada de corte não vem de gordura, vem de músculo. E músculo cortado não volta.
  • O modelo é ótimo para extrair, frágil para criar. Funciona soberbamente em negócios maduros com gordura para cortar e marcas com fosso. Em categorias que exigem reinvenção constante (alimentos embalados sob pressão de marcas saudáveis e de marcas próprias), a máquina de eficiência não substitui a máquina de relevância.
  • Pressão de metas tem efeitos colaterais. Sistemas que premiam resultado de forma muito intensa podem incentivar comportamentos de curto prazo. (Não confundir setores nem casos: vale apenas registrar que metas duríssimas exigem governança e controle igualmente duros para não degenerar.)

A leitura madura não é "o método é ruim". É: o método é uma ferramenta de corte e disciplina, não uma teoria completa de criação de valor. Use-o onde há gordura e disciplina a instalar; complemente-o onde o jogo é crescer e inovar.

Vale registrar, por equilíbrio, que Lemann também canalizou parte de sua energia para a educação pública brasileira através da Fundação Lemann, que financia formação de professores e gestores públicos — um lado menos comentado do trio, e fora do escopo deste ensaio, mas digno de menção.

Como aplicar no seu dia a dia

O método 3G se aplica a qualquer operação com cirurgia, não com decalque. Adapte cada princípio ao terreno, não copie a fórmula.

Meritocracia e metas. Uma operação com unidades comparáveis é o ambiente perfeito para meritocracia mensurável: volume vendido, margem, ticket, satisfação do cliente, perdas e quebras. Cada unidade vira um placar. Quem bate as metas ganha bônus desproporcional; quem não bate, com apoio e tempo, mas não vira a curva, dá lugar. Aqui o princípio "donos, não funcionários" é literal: cada gestor precisa tratar o caixa como se fosse dele. Remuneração variável atrelada a indicadores duros é a forma de fabricar esse comportamento.

ZBB na operação inteira. Todo ano, todo gasto recorrente volta ao tribunal — do contrato de manutenção ao gasto de software por cabeça. Nada é "já estava no orçamento". Isso é especialmente potente em negócio de margem fina, onde cada centavo é decisivo. Mas — e aqui mora a lição da Kraft Heinz — o ZBB tem cercas: não corte o que constrói futuro. Marketing, produto e tecnologia entram no orçamento como investimento em crescimento, não como custo a minimizar. O corte é em gordura operacional, não em músculo de crescimento.

Sonhar grande, com chão. "Sonhar grande dá o mesmo trabalho" é o filtro de ambição na hora de decidir onde a energia da operação vai. Mas a Kraft Heinz lembra de casar a ambição com reinvestimento real — sonho grande sem capital de crescimento por trás é só pressão.

O método como espinha dorsal. A meritocracia 3G só funciona porque é medida. É por isso que o gerenciamento por diretrizes e o PDCA de Falconi são o complemento natural: dão a engenharia que torna a meta auditável e o resultado rastreável. Meritocracia sem método vira favoritismo; método sem meritocracia vira burocracia. Os dois juntos são o sistema.

Para ir além

Comece por: Sonho Grande, de Cristiane Correa (a fonte central e melhor narrada sobre o trio, do Garantia à Heinz).

Depois: os estudos de caso públicos sobre Kraft Heinz e ZBB — incluindo a análise da Robert H. Smith School of Business (Universidade de Maryland) sobre os limites da estratégia da 3G, e a cobertura da baixa contábil de US$ 15 bilhões de 2019. Ler o sucesso e o fracasso lado a lado é a única forma honesta de estudar o modelo.

Avançado: Dream Big (edição em inglês do mesmo livro) somado a leituras sobre orçamento base zero aplicado a bens de consumo, para entender por que a mesma ferramenta que multiplica margem em cerveja descapitaliza marca em alimentos.

Conexões no vault

  • Lideranca — meritocracia, cultura de donos e gestão de talento como vantagem competitiva
  • Estrategia e Capital — ZBB, alocação de capital, M&A e os limites do corte como fonte de valor
  • Negociacao e Influencia — a disciplina fria de Lemann (do tênis aos negócios) como modelo de negociação
  • vicente-falconi — o método (PDCA, gerenciamento por diretrizes) que deu a engenharia de medição por trás da meritocracia 3G

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