O que a gente comemora (e o que a gente ignora)
Me conta o que uma empresa comemora e eu te conto o que ela é de verdade. Não o que está escrito no quadro da parede, o que faz as pessoas baterem palma no canal do time. Porque é isso que todo mundo aprende a perseguir, com ou sem intenção. Aqui a gente tenta ser cuidadoso com isso, porque comemorar a coisa errada é o jeito mais silencioso de estragar um time bom.
A gente comemora o cliente resolvido, não o esforço gasto
O aplauso fácil vai pro esforço visível. A pessoa que virou a noite, o projeto gigante que consumiu meses, o número grande de tarefas fechadas. É fácil comemorar isso porque dá pra ver. O problema é que esforço não é resultado. Dá pra suar muito construindo algo que ninguém pediu.
Então a gente puxa a comemoração pro outro lado:
- Um posto que estava em risco e voltou a confiar na plataforma.
- Um problema chato que sumiu de vez, não que foi remendado de novo.
- Uma decisão de não fazer algo, que economizou semanas do time.
A pessoa que resolveu um problema de raiz com uma linha de código merece mais aplauso que quem escreveu quinhentas. A gente tenta lembrar disso toda vez, porque o instinto puxa pro contrário.
A gente comemora o erro bem feito
Isso soa estranho, mas é sério. Quando alguém tenta algo com boa aposta, o negócio dá errado, e a pessoa conta pra todo mundo o que aprendeu, isso é comemorado de verdade. Não com ironia, com respeito.
O motivo é prático. Se errar dói socialmente, as pessoas param de tentar coisas novas e escondem os erros quando acontecem. As duas coisas são fatais pra um time que precisa se mover rápido. Então a gente faz questão de tratar o erro honesto e assumido como uma contribuição, porque ele é. Poupa o próximo de cair no mesmo buraco.
O que a gente não comemora é o erro repetido pela terceira vez pela mesma falta de cuidado. Errar tentando é aprendizado. Errar por não prestar atenção é outra coisa.
O que a gente ignora de propósito
Tão importante quanto o que se aplaude é o que se decide não aplaudir. Algumas coisas que aqui não rendem status:
- Estar ocupado. Agenda cheia e caixa de entrada lotada não impressionam ninguém. Muitas vezes são sinal de que a pessoa não conseguiu priorizar.
- Responder às duas da manhã. A gente não trata disponibilidade extrema como heroísmo. Uma vez ou outra acontece. Virar padrão é problema a resolver, não medalha.
- O tamanho do time que alguém gerencia. Crescer a equipe não é conquista por si só. Resolver com menos gente costuma ser mais impressionante.
Ignorar essas coisas é uma escolha ativa. No silêncio, elas viram o jogo que todo mundo passa a jogar. A gente prefere que o jogo seja outro.
Comemorar em público, corrigir em particular
Uma regra simples que muda o clima: elogio é melhor em público, correção é melhor no privado. Reconhecer alguém na frente do time custa nada e vale muito. Corrigir alguém na frente do time custa a confiança da pessoa e ensina todo mundo a se proteger.
E a gente tenta ser específico. "Bom trabalho" não gruda em ninguém. "A forma como você desenrolou aquela conversa com o cliente ontem segurou a conta" gruda, porque a pessoa sabe exatamente o que repetir. Elogio vago é quase tão inútil quanto nenhum.
Quem se dá bem aqui
Se você tira energia de ser visto trabalhando muito, de ter a agenda mais cheia, de ser o último a sair, essa cultura vai te deixar meio perdido. Aqui isso não vira status. O que vira é o problema que você fez sumir, a aposta corajosa que você contou mesmo tendo dado errado, a linha que você não escreveu. Se você prefere ser reconhecido pelo resultado do que pelo teatro do esforço, vai se sentir em casa. A gente comemora impacto, honestidade e simplicidade. O resto a gente deixa passar de propósito.