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IA e Tecnologia11 / 28
  1. Alan Turing — o homem que perguntou se máquinas pensam (e nos deu como descobrir)
  2. Andrej Karpathy — o engenheiro que ensinou o mundo a pensar em redes neurais
  3. Andrew Ng — a IA como infraestrutura, não como espetáculo
  4. Erik Schluntz e Barry Zhang — comece simples, e só dê agência ao sistema quando ela pagar
  5. Sholto Douglas e Trenton Bricken — o que acontece por dentro do modelo, e por que isso decide se você pode confiar nele
  6. Chip Huyen — arquitetar sistemas de IA confiáveis em produção
  7. Scott Wu — o prodígio que apostou na autonomia total
  8. Aman Sanger e Michael Truell — quando escrever software vira supervisionar agentes
  9. Dario Amodei — A aposta de que IA poderosa e IA segura são a mesma coisa
  10. Demis Hassabis — a inteligência como instrumento para resolver tudo o resto
  11. Ethan Mollick — o professor que mandou todo mundo convidar a IA para a mesa
  12. Geoffrey Hinton — o homem que ensinou as máquinas a aprender e depois pediu cautela
  13. Hamel Husain & Eugene Yan — Da demo ao produto: por que avaliação é o trabalho
  14. Fabio Cozman, Bruno Sanches e Daniel Avancini — o estado e os caminhos da IA brasileira
  15. Ilya Sutskever — o homem que apostou na escala e agora aposta na segurança
  16. Jack Clark — o repórter que virou a consciência política da fronteira da IA
  17. Jason Liu & Riley Goodside — Texto que vira dado: prompting como engenharia
  18. Harrison Chase e Lance Martin — orquestrar agentes sem perder o controle do contexto
  19. Mira Murati — a engenheira de produto que colocou a IA na mão de todo mundo
  20. Nathan Lambert — o tradutor do que acontece depois do treino
  21. Noam Shazeer — o engenheiro que escreveu a arquitetura da IA que você usa
  22. Sam Altman — O homem que apostou que a inteligência ficaria barata
  23. Simon Willison — o engenheiro que pensa em voz alta sobre IA
  24. Quinn Slack e Beyang Liu — o problema é o "big code"
  25. Swyx (Shawn Wang) — o homem que deu um nome à nova profissão
  26. Tyler Cowen — o economista que aprendeu a ler a IA antes de quase todo mundo
  27. Yann LeCun — o pioneiro que diz "não" ao hype que ajudou a criar
  28. Yoshua Bengio — o cientista mais citado do mundo que decidiu frear a própria área
PensadoresIA e TecnologiaParte 11 de 28

Ethan Mollick — o professor que mandou todo mundo convidar a IA para a mesa

12 min de leitura
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Pensadores

"Imagine uma muralha de fortaleza, com algumas torres e ameias avançando para a paisagem, enquanto outras se dobram para o centro do castelo. Essa muralha é a capacidade da IA, e quanto mais longe do centro, mais difícil a tarefa." (Ethan Mollick, Centaurs and Cyborgs on the Jagged Frontier, One Useful Thing, 2023)

O essencial em 30 segundos

Há um tipo de pensador sobre inteligência artificial que escreve do laboratório e nunca pisou no chão de fábrica. Ethan Mollick é o oposto. Professor da Wharton, ele transformou o uso pragmático de modelos de linguagem em campo de estudo, escrevendo quase em tempo real para uma audiência que não quer teoria — quer saber o que funciona na segunda de manhã. Sua tese central é desconcertantemente simples: a IA tem uma "fronteira recortada" (jagged frontier), brilhante em coisas que parecem difíceis e desastrosa em coisas que parecem triviais, e ninguém sabe de antemão onde estão as bordas. A resposta para essa incerteza não é cautela paralisante; é experimentação disciplinada. "Convide sempre a IA para a mesa." Para quem opera negócios reais — postos, recarga de veículos elétricos, um SaaS com agentes — Mollick oferece a moldura mental mais útil que existe para decidir onde a IA ajuda, onde atrapalha e por que você só descobre testando.

Quem é

Ethan Mollick nasceu em Milwaukee, Wisconsin, em 1975. Formou-se em Harvard, magna cum laude, em 1997, e fez MBA e doutorado no MIT Sloan, concluídos em 2004 e 2010 respectivamente. Hoje é professor associado na Wharton School da Universidade da Pensilvânia — onde detém o título de Ralph J. Roberts Distinguished Faculty Scholar — e estuda os efeitos da inteligência artificial sobre o trabalho, o empreendedorismo e a educação. Com a esposa, Lilach Mollick, co-dirige os Generative AI Labs da Wharton.

Antes da onda dos modelos de linguagem, Mollick já era um acadêmico respeitado de empreendedorismo. Seu primeiro livro, The Unicorn's Shadow (2020), atacava mitos perigosos que prendem fundadores e investidores — quem realmente faz boas startups, o que prevê sucesso, o que é folclore. Era um Mollick empírico, cético com narrativas confortáveis. Esse traço atravessou intacto para sua fase de IA.

O ponto de virada foi o lançamento do ChatGPT, no fim de 2022. Em vez de esperar os ciclos lentos da publicação acadêmica, Mollick começou a escrever a newsletter One Useful Thing no Substack, testando os modelos ao vivo, documentando o que funcionava e o que falhava, e publicando para uma audiência que cresceu para centenas de milhares de pessoas. Em 2024 lançou Co-Intelligence: Living and Working with AI, que entrou na lista de mais vendidos do New York Times e foi eleito livro do ano por The Economist e Financial Times. A TIME o incluiu entre as pessoas mais influentes em inteligência artificial. Tudo isso sem nunca abandonar a sala de aula — ele continua dando aulas e exigindo que seus alunos usem IA, não que finjam não usar.

A grande contribuição

A maior contribuição de Mollick não é um modelo nem um artigo seminal — é uma postura. Ele provou que se pode escrever sobre IA de dentro do uso, com rigor empírico e sem hype, num ritmo que acompanha a tecnologia. Onde o debate público oscilava entre o pânico apocalíptico e o entusiasmo ingênuo, Mollick ocupou o terreno do meio adulto: a IA é poderosa e imprevisível, profundamente útil e profundamente falha, e a única forma de descobrir o que ela faz por você é colocá-la para trabalhar em tarefas reais e prestar atenção.

A imagem que sintetiza tudo isso é a jagged frontier — a fronteira recortada. É a contribuição conceitual pela qual ele será lembrado. A ideia derruba de uma vez a pergunta inútil "a IA é boa ou ruim?" e a substitui pela pergunta operacional certa: "boa em quê, ruim em quê, e como eu descubro?". Para quem precisa decidir onde investir tempo e capital, essa mudança de pergunta vale ouro.

As ideias-chave

A fronteira recortada (jagged frontier)

Mollick descreve a capacidade da IA como uma muralha de fortaleza irregular: algumas torres avançam muito para fora — tarefas que parecem difíceis e a IA executa com folga — enquanto outras se recolhem para dentro — tarefas que parecem triviais e a IA erra feio. Nas próprias palavras: "Em algumas tarefas a IA é imensamente poderosa, e em outras ela falha completamente ou de forma sutil. E, a menos que você use IA bastante, você não saberá qual é qual."

O exemplo clássico dele: modelos resolvem problemas de raciocínio sofisticado, escrevem código razoável, fazem diagnósticos diferenciais — e então falham em jogos de palavras bobos, como contar palavras ou terminar frases com uma vogal. A lição prática para um operador é direta: não confie na sua intuição sobre o que será fácil ou difícil para a IA. A intuição humana de dificuldade não mapeia a topografia da máquina. Você tem de testar tarefa por tarefa.

Convide sempre a IA para a mesa

A primeira das quatro regras de Co-Intelligence. A justificativa é o problema da fronteira recortada: como você não sabe de antemão onde a IA é boa, a única forma de mapear a fronteira é usar a IA em tudo, por um tempo, e ver onde ela surpreende. Isso significa, na prática, levar a IA a cada reunião, cada relatório, cada decisão — não como oráculo, mas como participante. Em quase todas as tarefas em que você acha que ela não vai ajudar, vale o teste de cinco minutos antes de descartar.

Seja o humano no circuito (human in the loop)

A segunda regra. A IA erra com confiança — alucina fatos, inventa fontes, comete erros sutis que passariam despercebidos para quem não conhece o domínio. Por isso o humano não some do processo; ele se reposiciona. Em vez de produzir o primeiro rascunho, você se torna o editor, o crítico, o responsável final. Quem entende do assunto detecta o erro; quem não entende é justamente quem mais se ilude com a fluência da máquina. Mollick é insistente nisso: a fluência da IA não é confiabilidade.

Trate a IA como uma pessoa (esperta, mas alienígena)

A terceira regra é uma heurística de uso, não uma afirmação filosófica. Mollick não diz que a IA é uma pessoa — diz que tratá-la como se fosse uma pessoa esperta, porém estranha, produz melhores resultados do que tratá-la como software determinístico. Você dá contexto, papel, persona, exemplos; você conversa, corrige, itera. Mas lembra sempre do "alienígena": ela não pensa como você, não tem as suas intuições, e vai falhar de formas que nenhum colega humano falharia.

Assuma que esta é a pior IA que você jamais usará

A quarta regra é uma bússola estratégica. O modelo de hoje é provavelmente o pior que você usará pelo resto da vida — a trajetória de melhoria é rápida. A implicação para quem planeja: não dimensione decisões de longo prazo pela limitação atual do modelo. Construa sistemas e processos que se beneficiem automaticamente da próxima geração. O que é caro ou impossível hoje pode ser trivial em doze meses. Centaurs e cyborgs, como Mollick os chama, organizam o trabalho de formas diferentes — o centauro divide tarefas estrategicamente entre humano e máquina; o cyborg entrelaça os dois fluxos, indo e voltando pela fronteira recortada o tempo todo.

Em suas palavras

"Imagine uma muralha de fortaleza, com algumas torres e ameias avançando para a paisagem, enquanto outras se dobram para o centro do castelo. Essa muralha é a capacidade da IA, e quanto mais longe do centro, mais difícil a tarefa." (Centaurs and Cyborgs on the Jagged Frontier, One Useful Thing, 2023)

"Em algumas tarefas a IA é imensamente poderosa, e em outras ela falha completamente ou de forma sutil. E, a menos que você use IA bastante, você não saberá qual é qual." (Centaurs and Cyborgs on the Jagged Frontier, One Useful Thing, 2023)

"A IA tem uma fronteira recortada. Ela é boa em algumas coisas que parecem muito difíceis e ruim em algumas coisas que parecem realmente fáceis para humanos." (Ethan Mollick, no X / Twitter, junho de 2024)

"Centauros têm uma divisão estratégica de trabalho, alternando entre tarefas de IA e tarefas humanas, alocando responsabilidades com base nas forças e capacidades de cada um." (Centaurs and Cyborgs on the Jagged Frontier, One Useful Thing, 2023)

"Cyborgs misturam máquina e pessoa, integrando os dois profundamente. Cyborgs não apenas delegam tarefas; eles entrelaçam seus esforços com a IA, indo e voltando pela fronteira recortada." (Centaurs and Cyborgs on the Jagged Frontier, One Useful Thing, 2023)

Limites e críticas

A força de Mollick é também o seu limite. Ele escreve do uso, em tempo real, num ritmo de newsletter — o que significa que muito do material é observação anedótica e impressão de praticante, não estudo controlado revisado por pares. Ele próprio reconhece isso, e há um estudo de campo de peso que assina (o trabalho com a Boston Consulting Group sobre a fronteira recortada no trabalho de consultoria), mas boa parte do que viraliza são exemplos isolados que podem não generalizar.

Há também uma crítica de fundo: Mollick é, por temperamento, um otimista pragmático. Trata os danos sistêmicos — viés, concentração de poder nas big techs, custo ambiental, deslocamento de empregos — com seriedade, mas eles não são o centro do seu projeto. Quem busca uma crítica estrutural do poder da IA não vai encontrá-la aqui; vai encontrar um manual de adaptação para indivíduos e organizações dentro das regras dadas. A própria regra "esta é a pior IA que você jamais usará" pressupõe que a melhoria contínua é benigna e desejável — uma premissa que merece interrogação, não fé.

Por fim, o conselho "convide sempre a IA para a mesa" precisa de contrapeso quando há dados sensíveis, dinheiro ou segurança em jogo. O próprio Mollick insiste no humano no circuito, mas a euforia de "use em tudo" pode ser perigosamente mal interpretada por quem ignora os riscos de privacidade e injeção de prompt. É aí que ele conversa diretamente com a obra de outros, mais focados em segurança.

Como aplicar no seu dia a dia

A fronteira recortada é a ferramenta mental para decidir onde a IA entra em cada operação — e onde ela fica de fora.

Numa operação cheia de rotina, a tentação é automatizar tudo. Mollick lembra que a IA é "esperta, mas alienígena": ótima para resumir relatórios de turno, redigir comunicados internos, analisar padrões de venda e sugerir hipóteses sobre quebras de estoque — e perigosa se você deixar que ela decida sozinha sobre conciliação financeira ou precificação sem um humano conferindo. A regra do humano no circuito não é burocracia; é o que separa um copiloto de uma alucinação cara. Siga o teste dos cinco minutos: antes de cravar que "IA não serve para isso", teste. É assim que se descobre que ela é excelente para transformar uma lista bruta de reclamações de clientes em categorias acionáveis — uma tarefa que muita gente jamais delegaria por achar "subjetiva demais".

Onde os dados de uso e a previsão de demanda são o jogo, a regra "esta é a pior IA que você jamais usará" molda como você investe. Não dimensione a arquitetura de dados para o que o modelo faz hoje; prepare o terreno — dados limpos, bem rotulados, acessíveis — para que a próxima geração de modelos colha o que a atual ainda não consegue. Construir para a melhoria contínua é uma decisão de infraestrutura, não de feature.

Num produto de software com agentes de IA é onde a fronteira recortada mais dói e mais ajuda. A imprevisibilidade que Mollick descreve é exatamente o risco de produto: um agente que parece confiável em noventa fluxos e falha sutilmente no nonagésimo primeiro. Por isso desenhe o produto na lógica do cyborg — humano e agente entrelaçados, com pontos de checagem onde a aposta é alta — e não do piloto automático. O humano no circuito vira uma decisão de UX: onde colocar a aprovação humana, onde mostrar a fonte, onde deixar o agente correr sozinho. Mollick dá a moldura para essa conversa; quem dá o detalhe de segurança é o trabalho sobre injeção de prompt e a "trífeca letal" — e é por isso que vale ler os dois juntos.

Para ir além

Comece por: Co-Intelligence: Living and Working with AI (2024). É o livro de entrada perfeito — direto, prático, sem jargão, com as quatro regras como espinha dorsal. Em paralelo, assine a newsletter One Useful Thing no Substack; é onde Mollick pensa em voz alta e o material mais fresco aparece primeiro.

Depois: leia o ensaio fundador Centaurs and Cyborgs on the Jagged Frontier (2023), de onde vem a metáfora da muralha, e procure o estudo de campo com a Boston Consulting Group sobre o efeito da IA em consultores — é a evidência empírica por trás das anedotas. Assista também à conversa dele na Stanford GSB (Co-Intelligence: An AI Masterclass), boa para ver o raciocínio ao vivo.

Avançado: acompanhe o trabalho dos Wharton Generative AI Labs, que ele co-dirige com Lilach Mollick, sobre IA na educação — prompts pedagógicos, tutores de IA, avaliação. E volte ao The Unicorn's Shadow (2020) para entender o Mollick empírico anterior à IA: ajuda a calibrar o quanto confiar (e questionar) o praticante quando ele escreve sobre tecnologia.

Conexões no vault

  • IA e Tecnologia — área-mãe deste estudo
  • co-intelligence-mollick — resumo dedicado de Co-Intelligence
  • simon-willison — o complemento de segurança: onde Mollick diz "convide a IA para a mesa", Willison ensina a não ser roubado na própria mesa (injeção de prompt, trífeca letal)
  • Ponte com Energia e Mobilidade — a regra "pior IA que você jamais usará" aplicada à previsão de demanda em recarga de VE
  • Ponte com Estratégia e Capital — a fronteira recortada como critério de alocação: onde a IA cria vantagem real e onde só cria risco

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